O Morro dos Ventos Uivantes (2026) - Crítica
Eu sou um grande defensor da liberdade criativa, mesmo em adaptações. Vai mudar origens, etnias, cânone, gênero? Estou dentro. Sou muito liberal neste aspecto, desde que se mantenha a essência da obra, seja ela um game, livro, quadrinho… E se tudo der errado, o material primário seguirá lá, intacto.
Essa adaptação do clássico gótico por Emerald Fennell, obviamente, já surgiu destinada a ser algo mais “solto” em relação ao livro de Brontë. Goste ou não, a realizadora se estabeleceu com um estilo forte, chamativo e provocativo. Cheio de cores, vibrações e exageros. Muito se deve, claro, a seu colaborador, o cinegrafista Linus Sandgren, e agora à lendária figurinista Jacqueline Durran.
O filme, inclusive, apresenta seu título com aspas, o que denota a ironia e pessoalidade do projeto, para já evitar um pouco as rusgas dos puritanos. A própria Durran, mesmo no figurino, se inspirou em diferentes épocas, não restrita a quando o longa se passa, o mesmo que podemos ver no design de produção e, fora do diegético, na trilha sonora. Fica bastante explícito tratar-se da visão da diretora da história britânica, e essa é, como fica claro durante a progressão do filme, bastante fetichizada e idealizada.
Quer dizer, em Promising Young Woman e Saltburn já ficou evidente o estilo e as preferências visuais e temáticas de Fennell, com sua afeição pela provocação direta através do desejo e da violência, expressos costumeiramente sem pudor e com muita tentação. Isso não é um problema, pois desejo, obsessão e crueldade são tópicos centrais no livro.
No entanto, a opção de Fennell de canalizar toda a discussão e meditação instigada por Brontë em uma única via não deixa de me fazer refletir se não seria melhor abraçar de vez a inspiração na obra, tal como O Rei Leão e 10 Coisas Que Eu Odeio em Você se baseiam em Shakespeare sem usar o título e a reputação dos livros para si. Já evitaria comparações e um desprezo inevitável pelos mais puristas da fidelidade.
A pior consequência, entretanto, da abordagem de Fennell é que sua tentativa de subversão, almejando o novo, somente esvazia e empobrece o texto. Pois ora, se for buscar a atualização, que se desafie o espectador, aprofunde ideias ou então as questione. Até mesmo o pavoroso live-action de A Branca de Neve tentou algo inquisitivo em sua revisita.
Fennell, entretanto, parece mesmerizada por suas estrelas, Robbie e Elodi, de fato hipnotizantes e lindas, e filma seus olhares e corpos com um fascínio que despeja e justifica seu desejo; mas, ao focar somente nisso, torna a história como um desejo febril adolescente, o que aleija a trama e seus personagens num fulgor cansativo e idealizado.
Sobra pouco ao trabalho da diretora além de uma estética apurada, porém vazia. Algo que já a perseguia em críticas aos filmes anteriores, mas onde podíamos ainda encontrar significado e intento mesmo na mais grotesca imagem e cena. Aqui, sobra pouco fora uma linguagem de videoclipe, com enquadramentos e iluminação maravilhosos, porém ocos.
Quando Fennell parece perceber que precisa encerrar sua história e criar alguma comoção com o destino trágico dos personagens, já é tarde para desenvolver empatia e compaixão, quando estes foram tão obliterados como humanos, somente idealizados. Há até mesmo dúvida e hesitação em como desenhar as figuras de seu mundo. A suavização de Heathcliff não significa redenção ou explicação de seus atos, que somente fornecem uma exibição humilhante e vexatória de mulheres, em um encontro de choque degradante e infértil como narrativa.
Não é sobre alterar algo que já existe. E sim sobre empobrecê-lo em cada faceta. Um livro poderoso e marcante, mas não fácil ou apaixonante, lançado há quase 200 anos e que consegue ser mais moderno e pertinente que esta adaptação, de uma objetificação imatura e rasa que reforça os piores vícios de sua diretora.
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