O Drama (2026) - Crítica

Alguns filmes são difíceis de definir. E O Drama, novo filme de Kristoffer Borgli, certamente entra nessa miscelânea. Afinal, qual é a intenção por trás de seu afiado roteiro, que coloca Zendaya e Robert Pattinson como um casal prestes a se casar, entrando em uma inesperada crise após uma revelação sobre o passado da noiva? Mais do que julgar o ato - ou o pensamento -, o diretor, que também assina o roteiro, parece focar em desmembrar os aspectos externos e internos fragilizados por uma polêmica - ou fofoca que sai do controle.

Multicamadas, provocativo, intenso e igualmente hilário, Borgli nutre referências variadas, como o confronto frontal de Festa de Família, de Thomas Vinterberg, que abusa do constrangimento sem cortes. Mas também assume a tristeza matrimonial do ocorrido, o contexto norte-americano que permite tais tragédias e a própria natureza da maldade: um pensamento grave que nunca se concretizou em contraste com um ato menor, mas que de fato provocou sofrimento. A partir disso, ele transita entre a comédia de erros, o romance e, de certa forma, até um horror psicológico levado ao extremo, evocando filmes como Shiva Baby, mãe!, de Darren Aronofsky, e os longas caóticos e destrutivos dos irmãos Safdie - além do recente colosso solo de Josh Safdie, Marty Supreme.

Borgli indica estar ciente da impossibilidade de atenuar o que a personagem de Zendaya pensou - ou planejou -, e foca tanto nas consequências dessa revelação quanto em suas causas, enquanto distorce uma relação até então tida como ideal, bem como sua espiral corrosiva na vida pessoal de ambos. O direcionamento sobre Zendaya, inclusive, esconde a crueldade do que a personagem de Alana Haim fez, já que o holofote recai inteiramente sobre a protagonista. Com reminiscências de Dream Scenario, o cineasta reflete sobre a hipocrisia com que apontamos o dedo para os outros sem autocrítica, como se tudo fosse um jogo de ego e narcisismo para nos sentirmos superiores, mais éticos e bondosos do que aqueles que nos cercam.

Não é em vão que Charlie, o personagem de Pattinson, destaca tanto a empatia de Emma, a personagem de Zendaya, enquanto esvazia todas as outras figuras dessa característica, ao mesmo tempo em que lhe atribui o ato transgressor que move a trama. O que, afinal, nos torna monstros? Se não fosse a bebedeira e a conversa inocente entre amigos, eles seguiriam a vida sem saber desse acontecimento, considerando-a uma pessoa completamente diferente? E por que ela seria diferente agora, sendo julgada sob a ótica de 15 anos atrás?

Não há uma definição única de como abordar o tema. Borgli parece, entretanto, bastante convicto ao comentar sobre a problemática norte-americana - basicamente o único país a enfrentar essa questão com tamanha magnitude -, assim como certos elementos em comum que originam tais acontecimentos. O acesso ao instrumento, mas também o contexto da pessoa - como apoio emocional e sensação de pertencimento - importam profundamente e podem mudar tudo. Não se trata de justificar, mas de conferir camadas à discussão.

Mais certeiro, porém, é como o diretor expressa essa desintegração das relações que estruturam o filme, assim como da própria sanidade individual. Iniciando no humor negro - como na cena com a fotógrafa, hilária no idioma original ao brincar com o duplo sentido de “shoot” -, a comédia vai sendo gradualmente substituída pela morbidez, à medida que a relação se deteriora. Vemos então a desolação da personagem de Zendaya e a insanidade crescente do personagem de Pattinson, culminando na visceral cena do discurso do casamento, dificílima de assistir e magistralmente interpretada pelo casal.

Com domínio da linguagem, o diretor ilustra o ocaso abrupto da relação ao utilizar inserções de expectativa versus realidade na montagem, à la (500) Dias com Ela: o que a personagem de Zendaya esperava e vivia com o namorado contrasta com o que passa a enfrentar, marcado pela desconfiança e instabilidade dele. O que antes era um café da manhã amoroso e divertido transforma-se em uma barreira invisível que os torna estranhos, envoltos em uma frieza velada

O Drama, ao fim, é um exemplo marcante de como, mesmo sem reinventar a narrativa audiovisual, uma boa equipe pode transformar uma premissa comum em uma experiência única e sensorial. Uma pequena revelação desconstrói toda a expectativa e, a partir disso, constrói um filme inesperado e surpreendente - amplificado por um diretor seguro do que quer mostrar e por um elenco em pleno auge.

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