A Ilha Esquecida (2026) - Crítica
A Dreamworks surgiu de uma rusga com a Disney, e por muito tempo naufragou à sombra do grande estúdio, quase como uma série B de animações, não se ajudando muito, em seus primeiros anos, fazendo basicamente filmes que pareciam uma cópia barata em conceito e técnica dos da casa do Mickey.
Pois bem, a Disney andou dormindo em sua soberba e reputação, mais preocupada em restringir a liberdade de seus animadores e financiar políticos de direita, e essa já é uma era há muito passada. Se fizermos um recorte dos últimos anos, eu diria que a Dreamworks sobrepuja Disney e Pixar em ousadia temática, narrativa e até técnica, com filmes como Robô Selvagem e Gato de Botas 2 sendo surpresas criativas com mais inventividade e coração que a Disney anda tendo - vide Mundo Estranho, Wish e as intermináveis e requentadas sequências para lucro fácil. E A Ilha Esquecida é outro acréscimo nessa boa safra da Dreamworks.
Dirigido por Joel Crawford e Januel P. Mercado, que também encabeçaram o maravilhoso Gato de Botas 2, A Ilha Esquecida bebe na cultura filipina dos anos 90, trazendo como protagonistas, na versão nacional, Jô e Raíssa, duas adolescentes deslocadas que encontram pertencimento uma na outra, amadurecendo juntas enquanto sonham com o mundo mágico de Nakali, fomentado por histórias da vó de Jô.
Os esquemas do filme são questões que nos acostumamos a ver na Disney e na Pixar em seus bons momentos, homenageando uma cultura excêntrica aos americanos e fazendo uma história com lições de moral em meio a uma trama contagiante em emoção e humor. E, no melhor dos mundos, sendo ela uma história original. A Pixar tem tentado quando a Disney permite, entre as incessantes sequências, mas o estúdio principal do Mickey parece ter desistido mesmo, empurrando ao público até mesmo uma intragável continuação de Moana como uma série requentada e costurada como um longa porco e preguiçoso.
Crawford e Mercado, no entanto, em A Ilha Esquecida reforçam que o brilho de Gato de Botas 2 não fora um acidente, e mesmo aquele sendo um filme de franquia, é tão original e superior a tudo que saiu após Shrek 2, que acho justo dar-lhes grande parte do mérito. Pois, além de uma trama madura e equilibrada entre debates filosóficos e um entretenimento digno e respeitoso à nossa inteligência, houve também uma tentativa técnica muito exitosa e bem-vinda ao mesclar o 3D aborrecido a um 2D clássico, método hoje apelidado de 2.5D. Além da beleza, novidade e permissões artísticas que vêm do traço, há também o benefício de oferecer um orçamento mais barato aos filmes, algo muito necessário após a queda de bilheteria em animações no pós-pandemia, especialmente originais. É algo que permite novos riscos aos estúdios.
Mercado, que é meio filipino, e Crawford, casado com uma filipina, mergulham no folclore e na cultura local para dar corpo e imaginação ao filme e à história das garotas, mais especificamente nos anos 90, cheios de neons e uma poluição visual típica do Sudeste Asiático, mas, ao mesmo tempo, encantadora em seu caos e sincretismo. Uma versão menos glamourizada dos painéis japoneses e chineses. É bonito saber que a Dreamworks empregou em sua produção artistas filipinos tanto para a parte técnica do longa quanto para a dublagem de seus personagens, mesmo que em inglês. Há honestidade e paixão nessa homenagem, não somente uma atitude vazia.
É um caos, uma bagunça que se espelha no crescimento de duas jovens deslocadas da popularidade e do ser “normal”, mas cheias de vida, criatividade e energia para discutir a importância da memória e como somos definidos por ela. A sequência em que ambas firmam a amizade, dirigida quase como um arco de treinamento em animes, do momento em que se conhecem ao tempo presente que o filme nos conduz, é carismática, fluida e rica em detalhes. Com poucos diálogos, expressa visualmente a forte conexão entre as duas, que serve de norte para toda sua trama.
Nesse aspecto de amizade feminina, ele lembra um pouco o Red, da Pixar, mas com mais liberdade criativa tanto para criar um humor nonsense quanto na exploração cultural e de sua geografia, assim como o benefício de menos personagens para centralizar e desenvolver, criando mais intimidade e pessoalidade para ambas.
Até pela idade das meninas, é natural que seu reflexo, a despeito das inspirações estéticas e da vida dos diretores, seja na geração Alpha. E, por isso, as escolhas narrativas e de decupagem soam um pouco estranhas e apressadas para quem cresceu com um tipo diferente de ritmo. A Ilha Esquecida se move freneticamente, sobrecarregada em estímulos, com quadros hiperssensoriais a cada frame. Cores bastante saturadas e muito, muito neon, explorando caricaturas e brincando com técnicas de animação para momentos diferentes. Os flashbacks e narrações das personagens, por exemplo, são inspirados em animes, feitos por um estúdio filipino.
São gags difusas em sua eficácia e que, por algumas passagens, mais precisamente em seu segundo ato, se atropelam nessa busca de atingir a geração Alpha e seus hábitos de consumo de mídia. Apesar de o mundo mágico ser muito definido e desenhado, cheio de detalhes para se observar, o foco nos personagens que vão surgindo é mais em estabelecer uma caricatura para eles e gerar humor a partir disto do que aprofundar um arco dramático. Ele se assume como road movie em certos momentos, com figuras que vão se juntando às amigas, mas de pouca utilidade real fora preencher a tela e provocar gatilhos cômicos. Por vezes, esse esvaziamento emocional me frustra.
O cinema e seus diretores ainda vão ter de entender como cativar as novas gerações, com seu déficit de atenção e hábitos de consumo em tela vertical, com cortes rápidos e tudo mais. Acho que uma narrativa mais contemplativa como as do Studio Ghibli agrada a todos, por exemplo, tornando desnecessários esses sacrifícios e adaptações mais aceleradas que prejudicam o meio de A Ilha Esquecida, afetando o que poderia ser um filme ainda mais memorável. Uma boa história sempre será a melhor forma de se fazer um filme, afinal.
Mas torço muito para o sucesso do longa e que seu par de diretores tenha vida longa em animações. Em meio a Wishs e Moanas 2, uma história original que desbrava os limites da animação e não tem medo de explorar e respeitar uma cultura tão pouco usual ao Ocidente merece toda a atenção.
Nenhum comentário