Homem-Aranha: Um Novo Dia (2026) - Crítica

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Essa semana andei assistindo a Homem-Aranha 2, o original, do Raimi (tem crítica aqui), e Sem Volta Para Casa, e a diferença foi brutal. O filme de 2004, um dos mais laureados do subgênero, não somente segue intocável, como talvez tenha até melhorado em cotejo com a situação atual do cinema de heróis. Muita coisa que funcionava lá foi abandonada, e hoje é evidente sua falta, especialmente sua constrição conceitual, basicamente presa a uma Nova York que vira o centro do mundo naquelas duas horas. Mas os personagens, o olhar de Raimi para o heroísmo, a comédia e a humanização de Peter além do manto fazem com que a obra, como estética e narrativa, se engrandeça ainda mais quando assistimos à Marvel atual.

Sem Volta Para Casa, na contramão, só piora. Quer dizer, é a terceira vez que assisto ao longa, a primeira fora do cinema. Da primeira vez, somente curti; da segunda, me deixei levar por meu primo e gostei bastante. Agora, sem nenhum hype da reunião e com mais perspectiva, ele encolhe. A Marvel, aliás, é a maior culpada. Enquanto Homem-Aranha 2 permanece hoje o mesmo filme de 22 anos atrás (e qualquer alteração seria culpa do próprio Sem Volta Para Casa), o terceiro pilar da trilogia de Holland já surgiu refém de um projeto maior e, com o naufrágio dos planos da Marvel para o multiverso, tornou-se um filme basicamente inconsequente e vazio.

E essa segue sendo a grande ferida do MCU, agora mais exposta pelo fracasso coletivo da franquia, quando antes era sempre remendada por uma expectativa frequente que se justificava em euforia generalizada. Os grandes sacrificados pela bagunça atual acabam sendo os filmes individuais e, obviamente, ninguém mais do que o mais popular e lucrativo deles, o Homem-Aranha.

Eu fui ao cinema assistir a Um Novo Dia de peito aberto e bastante ignorante de sua sinopse. Não assisti ao trailer e evitei qualquer spoiler que não fosse a presença de Jon Bernthal como Justiceiro e Sadie Sink como alguém misteriosa. E isso ajuda, junto com minha expectativa baixa, mas, por mais previsível que seja, não deixa de ser frustrante ver um filme que prometia mais, com finalmente uma troca de diretor, do insosso Jon Watts para Destin Daniel Cretton, se tornar novamente refém de algo maior. Pois Um Novo Dia não é um filme do Homem-Aranha, e sim um filme da Marvel.

Mas antes, cabem alguns elogios. Eu mencionei a direção. Jon Watts nunca conseguiu oferecer algo além do burocrático como diretor dessa franquia. Ele evoluiu entre os filmes, mas não foi o suficiente. E, num estúdio que costuma asfixiar até mesmo cineastas talentosos (Sam Raimi, Chloé Zhao), um contratado acaba ainda mais estéril. Não que Destin seja um Scorsese da vida, mas, como diretor de drama, ele possui um repertório mais promissor; gosto muito de Short Term 12, e Luta por Justiça é funcional. Como diretor de ação, Shang-Chi apresentou os momentos e coreografias mais inspirados e inventivos da Marvel em muito tempo, baseados no wuxia e nas artes marciais chinesas.

E isso fica evidente em Um Novo Dia, especialmente em sua primeira parte, antes de o escopo aumentar. Enquanto drama jovial sobre as consequências vistas no final de No Way Home, o filme constrói sua trama com o peso e a solidão de Peter, ao mesmo tempo que faz algo de que sentia muita falta desde os filmes de Raimi e que Watts nunca demonstrou interesse em mostrar: exibir Nova York como um personagem. E isso não é idealizar a metrópole, mas poucas cidades são um sincretismo globalizado tão interessante - para o bem e para o mal - quanto a Grande Maçã. Somente ver Peter flutuar entre os prédios com o céu o banhando, além de integrar o personagem e sua rotina à arquitetura da cidade, humaniza e mescla tão bem o grande amigo da vizinhança com seu lar.

Já sua solidão é bem sentida e estabelecida aqui, com quatro anos passados desde os acontecimentos do filme anterior, dando tempo para o personagem - e o ator - amadurecerem e meditarem sobre tudo. As ausências de Ned e MJ, aliás, são tão sentidas pelo público quanto por Peter, o que reforça a melancolia e sua falta. Holland, um ator do qual não gosto muito, domina agora seu personagem, passando carisma, confiança e vulnerabilidade na medida certa. É gostoso estar em sua companhia, a primeira vez que sinto isso com ele no papel. E a química com Zendaya dispensa comentários, transcendendo a diégese. 

Enquanto permanece nesse microcosmo, o filme funciona bem tanto como ação quanto como drama. Ver a interação do herói com a cidade e os efeitos em sua vida pessoal e saúde mental espelha o famoso arco do próprio Homem-Aranha 2, só que aqui com uma bem-vinda nova decorrência: ao invés de perder os poderes, como ocorria no filme de 2004, Peter os aumenta e perde o controle de si. É um mote de enredo muito interessante, elaborado neste primeiro ato. É emocional e bem dinâmico como ação, apesar dos alvos menores. Quanto mais se expande, entretanto, mais Destin se perde. O diretor muda, mas os roteiristas ainda são os mesmos, afinal.

Alerta de spoilers a partir do próximo parágrafo.

A partir do momento em que a antagonista do filme é apresentada, o filme parece escorregar de suas próprias intenções e, assim como o personagem, o diretor vai sumindo dentro dessa grande sopa do MCU. O filme, em certo ponto, até deixa de parecer uma fita do Aranha para parecer uma minissérie sobre a Jean Grey de Sink. Não há nenhum sentido coerente para a introdução dos X-Men ser como nêmesis em um filme do Aranha, fora a praticidade e a conveniência para Feige. O MCU, tão mal das pernas, tem pouco futuro fora os X-Men, e não seria inteligente introduzi-los em uma série ou filme menor, já que há tempos a franquia deixou de ser um caça-níquel garantido, e os próprios Thunderbolts e Quarteto Fantástico acabaram decepcionando na bilheteria, algo improvável antes do arco encerrado em Endgame.

O novo Homem-Aranha, seu herói mais popular e rentável, torna-se então um estepe para essa apresentação, um simples gatilho para algo maior. A partir do momento em que a personagem revela seu nome, é como se o filme perdesse todo o seu eixo dramático. Some o peso e a urgência. É a Jean Grey, afinal, não uma vilã, nem mesmo a Fênix, ainda. Por mais que Sadie seja eficiente nas camadas do papel, é a personagem em um arco de fachada. O que Feige faz aqui é autossabotar o arco pessoal de Peter, que fora tão bem esboçado inicialmente, mas que vai progressivamente sendo esquecido e acelerado para construir a história de Jean.

É quase revoltante ver algo assim. É um filme não autossuficiente, mas que, como seu antecessor, serve como prólogo de algo maior para tentar salvar o estúdio. O público não merecia isso, nem Holland, nem Cretton. Todos os filmes solo se tornaram meios para um fim, que seria Vingadores, este próximo um grito apelativo de desespero para tentar retomar os eixos. O que Feige não consegue compreender é que o erro não está na falta de conexões, multiversos ou grupos, e sim na humanidade de suas figuras. Ficar jogando rostos conhecidos e outros heróis num filme não o fará melhor. Trará mais dinheiro, certamente, mas não qualidade. E conforme o entusiasmo coletivo se cansa, isso não trará mais as pessoas ao cinema, como já tem acontecido. 

É por isso que todos voltam a Homem-Aranha 2. Enquanto Sem Volta Para Casa, após uma primeira experiência, perde quase todo o seu valor, já que queríamos assisti-lo para ver esses velhos rostos em ação. A partir do momento em que não é mais novidade e queremos somente uma boa experiência, um bom filme, a história que vai funcionar é aquela com início, meio e fim, e não uma que serve para conectar um futuro que nem deu certo.

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