Devoradores de Estrelas (2026) - Crítica

Mesmo num gênero com recente escassez em Hollywood, muito devido aos riscos que costumam acompanhar produções que interligam grandes orçamentos e desinteresse do público, os anos 2000 foram generosos, se não em quantidade, na qualidade do sci-fi. Tivemos Lunar, Interstellar, Gravidade, O Marciano, Ad Astra e, de certa forma, A Chegada, por exemplo. E, talvez fora a necessidade de sobrevivência, todos bastante distintos em sua abordagem e tom.

Foi um ínterim considerável até termos uma nova empreitada de sucesso neste terreno, e ela veio não dos nomes mais convencionais para tal: a dupla Phil Lord e Christopher Miller, conhecidos por Anjos da Lei e Lego Movie. Provável que faça mais sentido quando olhamos os roteiristas, entre os quais consta o nome de Drew Goddard, que fez parte de O Marciano, com certa similaridade temática a este Project Hail Mary, no original.

Entretanto, pensando sobre o longa horas após seu término, fica claro que as principais virtudes do filme estão mesmo na assinatura da dupla de diretores: a irreverência e o coração, somente elevados a uma escala épica e integrados ao espaço, mais do que ao gênero em si. Até porque, como aventura, ele se aproxima muito mais de uma dramédia entre “brows” do que de uma ficção científica ao pé da letra. E isso é bom, afinal, se um enredo de salvar o mundo não traz muita novidade, talvez tal insinuação cômica perante o apocalipse seja uma leveza otimista bem-vinda num contexto de tanta desesperança, na tela e fora dela.

Até uns anos atrás, acho que eu não ficaria muito feliz de um projeto desta magnitude ser encabeçado por Ryan Gosling, mas hoje em dia fica claro ser uma escolha não somente interessante, como fortuita. Dotado de carisma hercúleo, mas também talento abrangente e variável, Ryan consegue carregar parte do filme como único elemento humano e tecer uma relação com um alienígena com doçura e uma “molecagem”, até sermos também fisgados pelo charme de Rocky. Fato é: mesmo em sua atitude descontraída para esconder insegurança e covardia, é na fragilidade que o protagonista nos convence e encanta. Uma neutralidade e curiosidade para qualquer interação; o apavoro de deixar tudo para trás; e também a tranquilidade para abraçar as consequências finais de um resgate absurdista.

Pode parecer fácil criar um filme sobre o fim do mundo. Todos estão em jogo, afinal. Identificação fácil ou indiferença generalizada? Mesmo num âmbito grandioso e de ostentoso orçamento, a história só nos importa pela dedicação em elaborar uns poucos, porém certeiros e marcantes personagens, trazendo simpatia mesmo em comportamentos que poderiam ser vistos com desaprovação — como a pragmática Eva, de Sandra Hüller.

No fim, mesmo quando encontra um equilíbrio entre documentar a rotina comum em eventos extraordinários e a urgência de arriscar a vida, ambas as circunstâncias só funcionam por nos importarmos, de fato, com o destino dos personagens em tela. Uma amizade que chega ao ápice do quão genuínas, puras e orgânicas relações podem ser mimetizadas no audiovisual. É um selo Cavaleiros do Zodíaco de aprovação.

Mesmo o grande orçamento, que nos possibilita visões impressionantes do espaço e dos conceitos do filme, por vezes até mesmo contemplativas, além de uma hermética trilha sonora de Daniel Pemberton, o segredo do filme está num elemento muito mais diminuto e intrínseco, mas tão precioso e essencial à vida quanto a água: a camaradagem. E é nesta humanidade que Devoradores de Estrela encontra seu brilho. Os demais, por mais espantosos, são acessórios.

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