O Diabo Veste Prada 2 (2026) - Crítica
Falar de O Diabo Veste Prada é falar de Miranda Priestly e Meryl Streep. Em que ponto a personagem, escrita como uma tremenda megera no original, se tornou tal ícone e figura exemplar de um certo nicho de internet (a galera do “famar aura”)? Talvez seja mesmo difícil odiar Streep, tão divertida e magnética no papel, por mais ranzinza que seja. Algo como acontece com Severo Snape, o Jordan Belfort de DiCaprio, ou então os “adoráveis otários” na linha de Dr. House, Tony Stark e Sherlock Holmes.
A questão é: está ok gostar de uma personagem vilanesca, mas a ponto de gerar uma certa idolatria? Bem, debates sociais à parte, aconteceu. Miranda se tornou um ícone da cultura pop e usurpou a inspiração em Anna Wintour para se tornar a própria constelação. Não é nenhuma surpresa, então, que nesta sequência ela receba um tratamento “Loki”. Sua canalhice é relativizada e revertida em um humor debochado e empoderado. Os brutos de bom coração. São fins que justificam os meios, novamente lembrando o Snape de Alan Rickman.
O novo longa faz questão de colocar isso em perspectiva imediata, trazendo também a conveniência que provoca o enredo: Miranda e a Runway são vítimas de cancelamento, e a alternativa é contratar a agora jornalista vivida por Anne Hathaway, tão politizada e integrada às pautas sociais, para purificar a imagem da marca. Miranda pode humilhar, ser cínica, irônica e implacável. Ainda assim, o roteiro ressalta que ela não apenas entende muito do que faz, como o ama - é obcecada por isso. Sacrifica a própria vida para tal. Não se chega onde ela chegou sem custos, ainda que vejamos um relacionamento bem íntimo e saudável com o personagem de um simpático Kenneth Branagh.
A suavização da personagem de Streep serve a dois propósitos: além de cimentar seu anti-heroísmo, expandindo sua agradabilidade e justificando sua celebração, sem para isso esvaziar o charme de sua personalidade ácida, também dá corpo à principal discussão promovida pelo filme: a substituição do belo pelo prático, pelo lucro desenfreado. Do difícil pelo fácil. Do complexo pelo rápido. É o jornal de Andy que anuncia sua demissão e a de outros colegas durante a entrega de um prêmio; o mercantilismo como último reduto da rentabilidade dentro da moda, e a mídia física como coadjuvante do digital. Nisto, as consequências são claras: o esvaziamento do conteúdo. Pretere-se a profundidade pelo sensacionalismo supérfluo.
Mas o grande trunfo de tudo está mesmo em como o diretor David Frankel consegue inserir essa discussão com naturalidade dentro de um texto simples, mas afiado, lúdico e que permite ao elenco brilhar com leveza e carisma. O conforto do trio principal de atrizes e de Tucci serve como um abraço quente que conduz o filme sem peso, mas com ambição.
É o suficiente para se destacar neste perigoso mar das sequências-legado que inundam a Hollywood atual. Um filme que faz sorrir e emocionar, mas também atualiza seu contexto com esperteza e utilidade. No reino da IA e do algoritmo do ódio, o Diabo da vez nem veste Prada - mas parece bem mais perigoso e inescrupuloso.
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