Homem-Aranha 2 (2004) - Crítica
Semana que vem teremos um novo filme do Homem-Aranha do MCU, desses do Tom Holland, e eu espero que seja bom, que eu goste, mas não conto muito com isso. Quer dizer, ao menos desta vez trocaram o diretor, mas ainda não tenho muito otimismo, considerando a simples dinâmica e o histórico dessa franquia, além dos esquemas e restrições do MCU em si, a questão do multiverso, das ligações infinitas e do molde que costumam seguir.
Isso me deu vontade de rever a trilogia do Raimi e resgatar tantos elementos de que sinto falta no cinema do subgênero de heróis. Acabei indo direto para o meu favorito, talvez o melhor filme de heróis de todos os tempos, ou certamente um postulante, e que saudade.
Que saudade de filmes assim, mais autocentrados, sem necessidade de fazer dezenas de ligações, interligar tramas e personagens, nem apostar em uma megalomania enorme e dessensibilizada. Filmes que também dão mais liberdade e voz a um realizador criativo e cheio de ideias.
Muita gente pode falar de O Cavaleiro das Trevas, que de fato é um filmaço, mas, enquanto a trilogia do Nolan segue um hiper-realismo - o que funciona ali, mas acabou se tornando uma intoxicação para o cinema blockbuster em geral, especialmente o do gênero fantástico, que passou a apelar constantemente para tramas, visuais e filtros realistas e sombrios, por mais lúdico que o conceito seja, sabotando e planificando essas obras em si, sendo o MCU um dos grandes exemplos - a trilogia do Homem-Aranha do Raimi consegue aliar a sobriedade do herói sem perder as características mais cartunescas de sua origem e do personagem. Para mim, seria um exemplo de ouro de como essas obras deveriam ser.
Ainda mais quando eles têm poderes tão fantasiosos. Afinal, estamos falando de um maluco que solta teias e voa entre os prédios de Nova York, cujos vilões envolvem um simbionte alienígena parasitário, alucinados que voam em pranchas por aí atirando bombas, um cara com tentáculos robóticos e, enfim, figuras exageradas. E não falo isso como algo ruim, mas como algo a ser abraçado, exibido, sem vergonha alguma, como muitos filmes por aí parecem ter hoje em dia.
Com o sucesso de Homem-Aranha, o segundo filme se sobressai pela segurança e confiança de seu diretor, Sam Raimi, um cara advindo do cinema de horror, em expressar melhor suas ideias e seu estilo cinematográfico, não mais tão restrito a um cinema de gênero ou de produtor.
A base é o arco de 1967, Homem-Aranha Nunca Mais!, que destaca o esgotamento físico e, especialmente, emocional de Peter como herói, com sua vida pessoal naufragando em meio às demandas de proteger uma metrópole como Nova York, até decidir largar o manto e conseguir se reconectar consigo mesmo e com o que é ser o Homem-Aranha, mas que Raimi adapta livremente.
Hoje em dia pode ser mais tradicional esperar análises psicológicas em materiais de quadrinhos, mas poucos fizeram isso tão bem e sem se apoiar tanto em melodrama ou em palavras vazias quanto Raimi. E, acima de tudo, com muito humor. Esse Aranha funciona tão bem, e tão melhor que os posteriores, por funcionar como um verdadeiro slice of life, focando na vida cotidiana de Peter.
O roteiro vem do veterano Alvin Sargent, que tem como principais destaques na carreira comédias românticas com sátira social e dramas familiares (Paper Moon e Ordinary People). Ele consegue imprimir muito bem esses elementos em Homem-Aranha 2, o que ajuda a explicar as intencões de Raimi. É bastante engraçado ver as situações em que Peter é colocado: as roupas manchando ao serem lavadas junto com o uniforme; ter de pegar o elevador, constrangedoramente, com um estranho; a falta de dinheiro para comprar flores para MJ; e os hilários confrontos com o J. J. Jameson de um inigualável J. K. Simmons.
Mas também não há banalização da miséria, existindo um bom equilíbrio ao reforçar como Peter vai se sobrecarregando e as consequências que disso decorrem: seu apartamento decrépito e as cobranças de aluguel, o aviso de despejo da Tia May, o luto pelo Tio Ben e a incapacidade de conciliar a vida social com seu alter ego, o que o faz perder sua amada e até a única amizade que tinha.
Há muito coração neste Homem-Aranha, e você se importa com Peter antes mesmo de apenas idolatrar ou admirar o herói. São tramas tão orgânicas e mundanas, com relações interpessoais fragilizadas que humanizam o personagem, a ponto de vermos uma comédia romântica e um drama familiar antes de um filme de herói, dando peso e profundidade aos personagens, o que intensifica a catarse dos momentos em que ele vai, inevitavelmente, assumir sua natureza de filme de quadrinhos.
E, claro, quando faz isso, torna-se impressionante e emocionante. A cena do trem já é um clássico, e não quero ser previsível, mas, além da set piece perfeitamente orquestrada por Raimi, dando seriedade e criatividade ao embate, gosto da normalidade e da seriedade com que o drama ali é tratado. São centenas de pessoas em um trem que segue em alta velocidade rumo ao descarrilamento, ameaçando provocar uma tragédia, e você sente a gravidade da situação pela encenação desesperada e desamparada de Tobey Maguire, o que dá mais honestidade ao seu heroísmo.
É um momento que, sinceramente, parece improvável no MCU, sempre lidando com o fim do mundo e ameaças intergalácticas que banalizaram qualquer senso de perigo e urgência. Tudo é muito grande, perdendo um tom mais íntimo de perigo e preocupação com as pessoas ao redor. São prédios e carros destruídos sem qualquer cuidado com a cidade ou com sua geografia, o que torna tudo tão vazio e automático, reduzido a um espetáculo vazio.
Ajuda muito a interpretação charmosa e introspectiva de Alfred Molina, que acaba sendo ele próprio uma vítima dentro daquele cenário. O tempo que passamos com o personagem, vendo seu ambiente, sua esposa, o amor que tem pelo trabalho e suas intenções, faz com que tenhamos empatia por ele mesmo em seus piores momentos. E, mesmo quando se torna vilão, transforma-se em uma ameaça imparável e impiedosa. A cena do hospital é um deleite para os fãs das origens splatter de Evil Dead: com menos sangue, mas muita diversão e sugestões brutais, sem ser graficamente violenta.
Quando Peter abandona o manto, você sente a ausência do personagem, mas entende seus motivos e apenas torce para que ele consiga conciliar as duas vidas. Isso me lembra muito O Serviço de Entregas da Kiki, a obra-prima de Miyazaki e do Studio Ghibli, em que a garota perde seus poderes quando se sobrecarrega, refletindo sintomas de ansiedade e depressão.
Peter é o herói dos tempos modernos, por mais que o filme já tenha 22 anos. É a prova de que Raimi entendeu como ninguém esse personagem, mantendo-o tão atual. É o herói possível do século XXI: quebrado, com poucos amigos, dificuldade para lidar com uma garota, encontrar trabalho, pagar as contas e ter um lugar digno para morar. Por isso, ele continua sendo o melhor amigo da vizinhança.
Nenhum comentário