Super Mario Galaxy: o Filme (2026) - Crítica
Se há um estereótipo que me chateia muito, é o de quem faz uma correlação arbitrária sobre animações serem filmes para crianças. Fora mídias direcionadas para a primeira infância e bebês, o que não falta são desenhos que conseguem encantar tanto os mais pequenos quanto os mais velhos, com subcamadas e significados que se expandem com a idade e a experiência. Acho que Pixar e Ghibli podem ser os principais exemplos disso. Tanto um filho quanto seu pai irão se encantar com um Divertidamente, com um nível de compreensão distinto. E o que dizer de um clássico como Shrek, cheio de sacadas e subtextos mais "marotos"?!
Porém, há filmes que parecem satisfeitos em serem relegados a um entretenimento inferior. Ou até pior do que isso, já que certos desenhos como Pooh ou Bluey possuem, mesmo com um foco óbvio nos mais jovens, um nível didático e moral desafiador. Contam com um trabalho narrativo rico, criativo e, especialmente, uma arquitetura que estimula a reflexão e o pensamento, respeitando a cognição das crianças, assim como sem aderir a recursos como montagens frenéticas, excesso de cores que, sabiamente, prejudicam a atenção. A escolha é valorizar seu público, sem alternativas preguiçosas e nocivas para chamar atenção e se destacar, mesmo que perniciosamente.
O maior expoente é, naturalmente, a Illumination, com seus Minions birutas e caóticos, narrativas que são interrompidas a cada 10 segundos com piadas e humor slapstick. Além de abusarem dos recursos negativamente supracitados e infantilóides, com pouco valor artístico e produtivo, fora um entretenimento barato. O primeiro Mario, mesmo que ainda afetado pela assinatura do estúdio, possui algum alento e mais carisma pelas figuras queridas e um enredo permeado pela descoberta. A previsão da nova visita seria se afastar mais desse espírito de Minions e expandir o universo. Bem, metade dessa frase realmente aconteceu. Expresso pelo título - Galaxy -, a sequência da história dos encanadores traz uma trama maior, com mais personagens e riscos. Infelizmente, também abraça ainda mais a natureza atrapalhada, obtusa e vazia que vemos nas aventuras de Gru.
Continuações costumam se beneficiar de poderem aprofundar um universo já consolidado. Algumas, entretanto, ficam perdidas após a introdução - cof cof Wicked 2. Infelizmente, aqui temos o segundo caminho. O fato de Mario e Luigi já estarem mais confiantes e estabelecidos joga uma incógnita em seu arco, buscando para onde crescer a partir disso. O único flerte em desenvolvê-los está na relação do protagonista com Peach. Enquanto Luigi é relegado a alívio cômico, acompanhado pela adição de Yoshi, que pouco faz após uma graça em sua introdução.
Dar espaço e personalidade às novas adições, aliás, é um problema severo nessa sequência. Ou, sendo mais radical, lidar com o progresso narrativo de qualquer personagem. Rosalina protagoniza o melhor momento do filme, justamente o inicial - o que cria uma falsa esperança que vai murchando conforme o tempo progride. Com um design caricato e expressivo, somos rapidamente fisgados por ela, em uma cena de ação bela e grandiosa. Mas, após isso, sua passagem é quase esquecida e relegada à observação.
O já mencionado Yoshi e até mesmo Fox McCloud, que causou tanto burburinho nas redes sociais, não se sustentam após a apresentação. Podemos implorar por mais, mas o filme os esconde, abandona. Fox surge como um salvador cool, sem preâmbulos, e pouco oferece além de frases de efeito. É difícil não comparar com Sonic 2, que fez um trabalho muito mais atencioso e eficaz com o tempo de tela e a caracterização de Knuckles e Tails, enriquecendo o conteúdo do filme com eles. Aqui, mais do que a frustração de não termos mais, fica um desapontamento de inaptidão, como se eles de fato não fossem importantes ou necessários.
O desleixo no desenvolvimento dos personagens compromete um trabalho visual que, por si só, é primoroso. A Galaxy é rica em detalhes, com planetas, habitantes e geografias bem definidos e distintos entre si. A nave de Rosalina e o planeta de Bowser Jr. rendem momentos visualmente inventivos e até surpreendentes. Ainda assim, acompanhar essa jornada se torna rapidamente enfadonho. Falta vida ao que deveria sustentar esse mundo. É como ver uma maquete, criteriosa e espantosa por fora, mas monótona por dentro. Após um primeiro olhar, há pouco a se explorar.
Diria, até, que Mario e Luigi conseguem se tornar os personagens mais desinteressantes em sua própria história. Do irmão, não há nada a comentar, mas o próprio Mario avança como um boneco oco, esporadicamente lembrando de uma paixão por Peach. É Bowser quem mais diverte e comove, mas, similar ao Buzz em Toy Story 4, não há consistência e convicção em seu arco, que flutua entre gags irritantes e insistentes, que prejudicam a fluidez das interações, por mais que arranquem risadas intermitentes.
Em Super Mario Galaxy, infelizmente, nenhum diálogo parece ter valor. Nenhuma personalidade sustenta peso. Nenhuma ação resulta em consequência. Portanto, tudo soa descartável, baseado em carisma e referências aos jogos, mas rapidamente esquecível além disso. Não há camadas, ou desejo de realmente elaborá-las. Há claramente material para discutir laços familiares e a perpetuação do trauma, o que é compartilhado por dois personagens. Entretanto, a impressão é de que nem o roteirista percebeu tal possibilidade. É até cômico, pois, diferente do original, aqui a Illumination sabiamente mixou a trilha com temas populares da franquia, mas são cenas que soam como acenos, migrando como um jogo, de fato.
O que a equipe não parece ter entendido - ou pior, esqueceu - é que mídias diferentes carecem de métodos distintos. Numa arte mais passiva como o cinema, em que não há o risco ou a adrenalina do controle na mão, esse novo Mario parece mais uma exibição bonita, mas superficial, de temas e figuras que marcaram estes 40 anos de um dos personagens mais simbólicos da história dos games. Uma pena que seja pouco Mario, e muito Illumination.
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