Michael (2026) - Crítica
Acho que é um consenso como biografias musicais são o subgênero cinematográfico mais infértil e previsível. De aparição intermitente, com esporádicos sucessos de crítica e bilheteria, recentemente se tornou tendência. A indústria, infelizmente, parece ter pego como referência narrativa justamente um dos piores exemplos, tecnicamente falando, mas de indiscutível êxito: Bohemian Rhapsody.
Com seus mais de 900 milhões de dólares e 4 Oscars, fica difícil depor contra o longa. São robustos argumentos a favor na disputa pessoal com o mais ousado e inventivo Rocketman, também de 2019, já que a vida de Freddie Mercury se saiu melhor nas duas disputas. E, apesar do escrutínio da mídia especializada e de “entendidos” das redes sociais, a adaptação da história do Queen convergiu com o grande público, oferecendo um entretenimento superficial, porém entregando espetáculo, um enredo envolvente e, especialmente, se apoiando nos hits. A recriação de grandes momentos acaba sendo um catalisador de emoções mais poderoso que a força da dramaturgia em si.
Desde então, entre mais ou menos famosos, inúmeros artistas tiveram suas vidas transportadas para a grande tela. E a monotonia e o aparelhamento foram uma deprimente regra. Whitney Houston, Judy Garland, Bob Marley e Aretha Franklin ganharam seus filmes, todos modorrentos e o mais manipulativo possível para fomentar um legado. Melhor se saiu a adaptação de Bruce Springsteen, introspectiva e focada em um período inesperado, mas frutífero e complexo na vida da estrela. Porém, em termos estéticos, ninguém se compara ao Elvis de Baz Luhrmann, mesclando bem a extravagância dos artistas para criar algo que talvez não seja coeso, mas feroz e vívido. A saturação do subgênero foi tão intensa, entretanto, que até mesmo nomes de menor impacto internacional, como Robbie Williams, ganharam sua versão. E, em defesa deste, pelo menos algo foi tentado para chamar atenção, ao retratar o protagonista como um macaco.
Até demorou para irem atrás de Michael Jackson nessa história toda; afinal, além de ser o segundo artista que mais vendeu álbuns na história (atrás dos Beatles, que também ganharão sua cinebiografia em breve), é um ícone muito facilmente comercializado e identificável. São músicas populares e um indivíduo irresistível e misterioso, mas que também permite a megalomania e a recriação de shows grandiosos e pirotécnicos.
Não é uma má ideia, naturalmente, já que Michael é um assunto fascinante e, como amante da sétima arte e fã do cantor, gostaria de ver sua história em tela. Mas, com o interesse, vem a dúvida de como seria essa abordagem. Seria como os intrépidos Straight Outta Compton e Elvis, ou a burocracia robotizada de Bohemian e outros supracitados, contentes na mesmice de somente exibir os highlights para um público em delírio?
A escolha de Antoine Fuqua foi uma declaração bem desanimadora; afinal, é um diretor em decadência e distante de seu estilo preferencial. Já é uma evidência de se tratar de um trabalho por encomenda, com intrínseco envolvimento da família Jackson, com um certo tom a preservar.
E, após tanta especulação, assistir a Michael é a comprovação de todas essas questões. Um filme que é aquilo que se espera dele, sem mais nem menos, contente em ser e existir - quase como um esqueleto estrutural de redação do Enem. Temos a introdução da infância de Michael e o Jackson 5, com a figura opressiva do pai, Joe Jackson, espreitando e definindo os traumas adultos de seu filho. O talento de Michael é assumido como um dom divino, sendo seu dever - ou melhor, seu destino - se tornar uma estrela. Mas nem tudo é fácil; afinal, sem conflito, não há emoção. E sem queda, não há redenção.
Michael se fere, é vítima da ganância de seu pai e da passividade da mãe, enquanto seus irmãos, que já foram descritos como invejosos no passado, são expostos como um pano de fundo de peça teatral: existentes, mas desimportantes. Mas Michael sempre foi um sonhador, um garoto diferente e especial. Nada pode pará-lo até atingir seus sonhos, seu potencial. Nós já sabemos que ele chegou lá e como, tristemente, terminou. E, a não ser que você seja completamente ignorante da biografia do artista, não há nada de novo a se mostrar. Afinal, o roteiro, além de se limitar ao início da Bad Tour, faz uma transcrição amortecida dos primeiros parágrafos da página de MJ na Wikipédia.
Nessa rota preguiçosa e previsível, resta-nos contemplar o que há de bom. O filme é bem produzido e muito bem atuado. Juliano Valdi, que dá vida ao jovem Michael, é tão carismático e vivo que nos faz lamentar quando o personagem cresce; mas Jaafar Jackson, sobrinho do protagonista, é tão competente que nos faz esquecer isso. Dando uma vulnerabilidade premente e uma inocência infantil ao retrato, é fácil apoiar Michael, torcer por ele - e isso porque o filme não chega aos piores momentos de sua vida, que ficarão para uma inevitável e trágica parte 2.
Por melhor artista que seja, no entanto, Michael ficou famoso pela música: pela dança, pelo timbre único e por como dominava o palco e plateias de dezenas de milhares de pessoas em polvorosa, ainda que fosse um rapaz tímido. Fuqua, novamente, desaparece por trás dos créditos e somente deixa Jaafar ser Michael, quase como um documentário - e, nisso, as canções famosas surgem como uma passagem do tempo, um checkpoint da história, inutilizando grande parte do texto como ferramenta de progresso diegético.
Ao fim, saímos do filme como entramos. Não há a sensação de que se entendeu ou aprendeu nada novo sobre a pessoa Michael. Como artista, o filme só sublinha sua genialidade e grandeza. Até mesmo os processos criativos são atenuados, com exceção de Thriller. É tudo muito natural e celestial mesmo. É uma aproximação falsa da persona, pois ele apenas desenha ao redor do mito, do totem que MJ foi em vida.
Essa parte 1 teve tarefa fácil para pintar essa figura tão unidimensional e branda. É curioso pensar como a sequência será abordada, já que é a partir dos anos 90 que a celebridade Michael passa a ser questionada e enfrenta turbulências que afetaram tanto sua reputação. Mas também é devido a isso que o homem Michael passa a ser mais visto e tem de tomar decisões e iniciativas fora do palco. É um material rico e desafiador, que merece um tratamento mais rebuscado e elegante do que simplesmente se satisfazer em ser uma colagem de momentos - uma diversão esquecível e passageira.
Michael Jackson já está eternizado como um gênio musical. Sua obra é atemporal. O que ele precisa é de uma produção que o entenda e compreenda, mas sem tanta condescendência, que basicamente o destitui de personalidade. O filme transforma uma das figuras mais complexas da cultura pop em um produto bem embalado, confortável e comportado demais. Mas sim, divertido e empolgante.
Nenhum comentário