Elio (2025) - Crítica
A Pixar, que já foi o maior expoente da animação Ocidental, talvez mundial, somente atrás do Ghibli em respeito, destacada por qualidade, originalidade e emoção, já tem, há algum tempo, minguado em irregularidade. Parece que paira num ar uma expectativa de voltarem a ser quem eram, só que isso já há muitos anos. A verdade é que isso não vai acontecer. E no fundo, todos sabemos. Novos tempos, troca de funcionários, a traumática perda de Lasseter e aposentadoria de antigos mestres; mais competitividade, a compra pela Disney. Não faltam fatores.
É curioso pensar, aliás, que quase tudo que a Pixar fez em sua era dourada saiu em uma tarde, um almoço dos anos 90, e isso explica, por exemplo, como a Dreamworks fez tantos filmes de temática similar e no mesmo período da Pixar, como Espanta Tubarões x Nemo, FormiguinhaZ x Vida de Inseto, Por Água Abaixo x Ratatouille. Pois Jeffrey Katzenberg, um dos fundadores da Dreamworks, era funcionário da Disney na época, antes de sair por brigas por poder.
Muitas das histórias da Pixar são experiências pessoais de um seleto grupo de artistas, e em algum momento eles iriam ficar sem novas tramas e ideias, ao menos tão íntimas e orgânicas, e por isso mesmo tão naturais em transmitir emoção, seja no drama, aventura ou comédia. Essa galera envelheceu, o público parou de ir ao cinema, a Disney passou a cobrar mais bilheteria e sequências seguras com personagens queridos. Isso não quer dizer que a Disney parou de dar voz original a realizadores e criar histórias maravilhosas, mas agora há mais competição e a narrativa e linguagem audiovisual mudaram. Ainda assim, entregou bons filmes como Red, Luca, Soul, Elementos, DivertidaMente além de sequências dignas como Toy Story 4 e Incríveis 2. Porém, os tropeços também ficaram mais frequentes, como Universidade Monstros, Lightyear e Dois Irmãos. Pior que isso, o retorno financeiro foi dirimindo, as estreias atraindo menos, as famílias tendo mais opções, seja no cinema, seja fora dele, e os filmes da Pixar deixaram de ser um evento. Antes, era Disney, Pixar e Dreamworks. Agora temos o Illumination, Sony, Ghibli com mais distribuição e, é claro, a Internet, com o streaming e a pirataria.
O streaming, aliás, que prejudicou muito a Pixar na pandemia, com o polêmico lançamento de Red, Luca e Soul diretamente pro Disney Plus, a contragosto do estúdio, com os profissionais se sentindo traídos e descartáveis pela mãe Disney, o que também causou no público uma certa impressão de descarte ou inferioridade, algo infantil deixado de lado.
E ainda, sobre tudo isso, tem o fato de que Elio teve muitos problemas nos bastidores, com adiamentos de anos e uma produção demorada e conturbada, com mudanças de diretor, enredo, tom e design. Assim, fica já suspeito a falta de confiança no filme, não é?! A resposta está tanto na falta de publicidade do filme, basicamente forçada junto com Lilo Stitch, quanto a decepcionante bilheteria de estreia, a pior do estúdio, ainda socado no meio de outros blockbusters, muitos infantis, como Como Treinar o seu Dragão e Lilo Stitch, além de filmes como Missão Impossível, Extermínio 3, Materialistas e Bailarina. É muito longa grande pra pouco espaço.
E a impressão ao assistir Elio é, infelizmente, a de um filme feito para preencher agenda e essa demanda maluca da Disney de 3 filmes a cada 2 anos. Uma produção industrial que acaba cobrando seu preço na qualidade. O filme até foi divulgado como uma experiência pessoal do diretor Adrian Molina, mas com a substituição do cineasta por Madeline Sharafian e Domee Shi (de Red), como fica isso? O resultado, obviamente, acaba sendo um filme sem identidade, o mais próximo possível que a Pixar chega de fazer um longa formulaico e criado por IA para gerar emoção e identificação.
Mas a IA é, como sabemos, fria e desalmada, somente uma réplica incolor de humanidade, e Elio, infelizmente, por mais bonito que seja, carece muito de aprofundamento e um sentimento real, por mais que se esboce e reconheça a relevância e simpatia da trama. A busca de um introspectivo solitário e órfão (percebe como, apesar de tocante, parece um arquétipo tão genérico e apelativo por atenção) por amor e conexões.
Quando desmembramos a filmografia da Pixar, podemos perceber um cerne de histórias e personagens em busca de amor, conexões e propósito. Toy Story, Monstros SA, Nemo, Wall-E e enfim, basicamente tudo. Mas todos estes conseguiam construir um mundo e figuras para embasar e potencializar as metáforas e a emoção do longa, até por isto atraindo lágrimas naturalmente.
Tudo que falta em Elio, como por exemplo, ao atrelar ao garoto um interesse por alienígenas e astronomia em busca de um lugar no mundo. Não há, entretanto, desenvolvimento nem interesse criativo em explorar e recriar tal mundo, criaturas e enfim, novos mundos. O Communiverse, que inspirou até mesmo uma nova tecnologia pelo estúdio, é bonito, porém insosso e distante. E até sinto uma frustração dos animadores e da equipe criativa, que criou, com tanto esmero e ideias tal conceito, visualmente esplendoroso, para ele ser despejado com tanto desleixo em tela, coadjuvante e como um ornamento vazio. Uma beleza frugal, tediosa.
Elio vai sendo conduzido, andando assim. Com preguiça, um certo aborrecimento, esperando o choro e a emoção como que automaticamente, sem realmente sentir a história que se aborda. O que é, de certa forma, um crime criativo. E é uma pena como a Disney parece conduzir assim um estúdio e sua equipe, como plano B. É como se quisessem provocar o fracasso de obras originais para justificar um Toy Story 28, um Carros 15 e um Incríveis 20. Perdemos todos nós.




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