Euphoria e o fim do American Dream
O sonho americano, ou American Dream, no original, é um lema que define um ethos onipresente no estado democrático do país. Em suma, uma vida próspera, com liberdade e oportunidades para o sucesso. Mas quem melhor cunhou seu significado foi o historiador James Truslow Adams, em 1931, no livro "O Épico da América", durante a Grande Depressão:
"(...) esse sonho de uma terra em que a vida seja melhor, mais rica e mais plena para todos, com oportunidades para cada um de acordo com sua capacidade ou mérito.”
Meritocracia e a tão malfadada liberdade norte-americana, dois termos que não envelheceram tão bem, se é que alguma vez foram verdade, quanto mais em tal país. Mas, a despeito de sua falácia e caráter ilusório, nunca estiveram tão expostos e inatingíveis, mesmo como fantasia, quanto hoje.
A geração Z, compreendida genericamente entre 1997 e 2010, é o grupo representado em Euphoria, da HBO, que tenta capturar os desesperos e sonhos desses jovens, que agora vão dominando o mercado de trabalho, em meio a uma sociedade - ou mundo? - em colapso. Frequentemente espalhafatosa e sensacionalista, as duas primeiras temporadas reproduziram conflitos de seus personagens durante o ensino médio. A necessidade de atenção, aceitação, alienação e tantas outras descrições.
Após um hiato, a terceira temporada retornou neste 2026, adotando um salto temporal de 5 anos, com seus personagens entre 22 e 24 anos, desbravando a vida adulta em seus primeiros momentos.
A temporada vem sendo muito criticada por distanciamento e falta de direção. E realmente tem pecado, muito por uma falta de comprometimento com seus personagens, e parece ter aceitado somente tê-los em tela e se debruçar sobre certos arquétipos, assim como o status consolidado de alguns atores, em comparação ao começo da série. Mas mesmo nesta falta de objetivo, não podemos negar haver um certo padrão, um esquema, na representação de Rue, Nate e os outros: o vazio, a falta de sentido e as aparências.
Nate e Cassie seguiram como um casal "estabelecido" após todas as polêmicas anteriores, e apesar de serem vistos como funcionais, não são exatamente um par exemplar. Sam Levinson, o criador da série, transforma a personagem de Sydney Sweeney em uma caricatura da imagem pública da atriz, reforçando sua dependência de uma figura masculina tóxica e em status. Todas suas virtudes são físicas e destituídas de um pensamento crítico e de autopreservação.
Nate é quem mais sofreu com esse desequilíbrio e em pouco lembra o rapaz das primeiras temporadas. Ou é o que mais sofreu com o tempo e se resignou ao seu papel de homem de família adulto dentro de um padrão heteronormativo branco. Ele quer mesmo prover, e Cassie é um grande troféu. Não resta muita personalidade, mas sobra um arco: agora responsável pelos negócios do pai, apesar de vender sucesso, está enterrado em dívidas, com consequências surgindo ainda no contexto da criação deste texto - S3e3.
O artifício para encaixar Maddy novamente neste núcleo, em meio à ruptura que parecia definitiva ao fim da segunda temporada, foi fazê-la se aproveitar da ingenuidade e ganância de Cassie por riqueza e reconhecimento. Assim, se vinga ao expor a ex-amiga ao ridículo, ao mesmo tempo em que busca riqueza rápida, já que seu trabalho real traz muitas postagens invejáveis para redes sociais, mas pouca compensação prática.
Jules, tardiamente revelada, deu prosseguimento ao que fora introduzido em sua relação com o pai de Nate, vivido por Eric Dane, e o expandiu. Vive de um hedonismo mutualista, uma sugar baby consciente e contente. O sonho de se tornar artista rapidamente perdeu seu apelo em cotejo ao dinheiro fácil proporcionado pelo tesão carnal velado dentro da elite norte-americana. Ela ganha, ao mesmo tempo, validação financeira e sexual.
Rue, na contramão, atingiu um certo grau de sucesso e melhorou de qualidade de vida, ainda que, em tese, só tenha tido seu contrato de posse transferido de um dono a outro. De um crime a outro. Mas há mais liberdade e recursos para exercer seus desejos e realizar seus prazeres. No entanto, há sempre um lembrete do quão frágil é tal dinâmica, quando tem de deixar o casamento para um trabalho potencialmente fatal. Ao contrário dos outros, no entanto, Rue não demonstra orgulho em tais tarefas ou ânsia de exibir seus ganhos. Um diálogo no começo do episódio 3, aliás, ressalta seu objetivo de levar uma vida "legítima", conceito questionado e pisoteado por Alamo. Há espaço para o ético, para o legalizado vencer na sociedade atual? O que Alamo e Laurie fazem são mais sujos do que o congresso e a elite americana? Os arquivos Epstein estão aí...
O ponto em comum em pelo menos 4 desses personagens é a vida líquida, de aparências. Literalmente para redes sociais, para os outros. A rejeição da pobreza, bradada por uma Cassie histérica. Parecer mais importante que ser, a qualquer custo, como exibem as ações de Nate, que não somente esconde, como rejeita alterar o estilo de vida em meio às dúvidas (e dívidas).
Mas nada precisa ser sobre uma coisa só. Muita gente já destrinchou o âmago desta temporada ser sobre isso, justamente na geração das redes sociais, do TikTok etc. Não é somente uma condenação e acusação, já que, anteriormente e agora, Levinson deixa bem claro como todas as gerações anteriores são cúmplices e responsáveis por isso, mesmo que não unicamente.
Mas, mais ainda, eu diria que Euphoria, nesta terceira temporada, de fato abraça a narrativa da queda do American Dream, agora permitida plenamente por ilustrar suas figuras na vida adulta, na vida "de verdade". Como diz Alamo, o que te define é poder. E o que traz poder é dinheiro. Em suma, seu valor é dado por seu patrimônio. O ser é resignado à conta bancária e ao estilo de vida. A vida, sob tais holofotes, deixa de ser legítima e assume um tom farsesco. É um conceito bem explícito no segundo episódio, chamado ironicamente de "America My Dream".
O tema do capitalismo tardio já está presente há um bom tempo na cultura pop global. Essa adoção pelas grandes corporações não deixa de ser uma anestesia, um aceno cínico ao grande público, como se fôssemos, de fato, vistos e sentidos. É essa falsa sensação de sermos notados e, a partir disso, sugerir uma possibilidade de mudança. É o pão e circo no cenário contemporâneo.
Euphoria não inventa a roda, mas ganha bastante tempo, atenção e orçamento para trazer sua versão do centro do furacão. Do país que mais fomenta sua ideologia, com a geração que mais sofre as consequências, enquanto é taxada de mimimi e "nem-nem" por quem vem de cima, com senso de superioridade.
Hoje, o Metrópoles postou um vídeo sobre como 1 a cada 5 adolescentes não tem mais vontade de viver. O quão fundo a mídia corporativa vai atrás disso? Vão culpar as redes sociais, o brainrot. Alguns sintomas claros de alienação. Vão ir atrás das questões socioeconômicas que parecem só distanciar a possibilidade de uma vida digna, dos bens básicos? Acho difícil, afinal, é a mídia que age como comparsa para os interesses da burguesia, como estamos novamente vendo na repercussão das pré-campanhas à presidência.
Posso citar exemplos: é o Kwid custando mais de 80 mil reais. É o aluguel aumentando 10% ao ano, amordaçando e dificultando a residência própria, acumulada entre poucos que chegaram na hora certa, os mesmos que culpam os mais novos por serem vagabundos e não lutarem ou se esforçarem para conseguirem seus bens. A inflação astronômica dos bancos e a redução da desigualdade social que desacelera...
São questões que nos afetam mais em países de subdesenvolvimento, mas compartilhadas globalmente, ainda mais nos EUA, com um estado de bem-estar social tão fraco. Um país que defende tanto a liberdade, mas que não permite acesso à educação ou saúde sem dívidas que assombrarão o indivíduo por décadas. Um país que se defende como o melhor do mundo, mas que vê um êxodo populacional de pessoas que não mais acreditam em sua miragem de prosperidade.
Num futuro de perspectiva borrada ou então nula, é terreno fértil para a transgressão, ou então o niilismo. É este o cenário dos personagens de Euphoria agora. É viver com uma ideia projetada em sua mente, para então crescer e, em alguns casos, mesmo em berço privilegiado, vislumbrar a demolição do que lhe foi prometido. Por mais sensacionalista e fictício que seja para gerar entretenimento, há um nicho representado por trás das ações de personagens que preferem abrir OnlyFans e meios "alternativos"de ganhar a vida. O sonho da faculdade é desmanchado diante da facilidade de ser uma sugar baby, por mais perigosamente higiênico e facilitado que tenha sido mostrado - até aqui - tal caminho.
Por mais trôpega e incompleta que seja esta temporada de Euphoria, ela segue tendo algum mérito por como ilustra uma certa demografia global, ainda que mirando na norte-americana. Parece ser cada vez mais o que nos resta: sentir conforto e representatividade na cultura, na mídia, no audiovisual, sem muito a que esperar depois. Após posar de bem-sucedida no casamento de Nate e Cassie, Maddy volta para sua casa decadente e escureca. A nós, resta desligar a TV.
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