Mortal Kombat II (2026) - Critica

Há uma cena em Mortal Kombat II em que Johnny Cage, em uma noite de bebedeira, discute com um fã sobre o cenário atual do cinema de ação em Hollywood. Cage é um canastrão, um ator do cinema galhofa brucutu, inspirado em Jean-Claude Van Damme. O fã pede o retorno da estrela, que, amargurado, refuta dizendo que seu cinema espalhafatoso e fantasioso ficou no passado. Como hoje em dia todos querem algo realista e obscuro, como John Wick (ignorando que, após o primeiro capítulo, os próprios filmes de Wick melhor adotaram o exagero, ainda que adeptos de um estilo sombrio). É um diagnóstico preciso e que encontra um contraste incipiente inspirador neste Mortal Kombat. Tanto a primeira luta do filme, que apresenta a história de Kitana, quanto um recorte dos filmes de Cage, são gráficos, cartunescos e extravagantes. Cenas divertidas, mesmo que em diferentes tons.

É irônico - e muito triste - que, progressivamente, após os primeiros momentos, o filme abandone esse estilo para somente cair no que ele próprio lamentou. Lembra o bagunçado X-Men: Apocalypse, que brincou com o fato de que o terceiro filme de trilogias tende a ser o pior delas. Bem, a metalinguagem expressou bem a verdade naquele caso, já que está léguas de distância de Primeira Classe e Dias de um Futuro Esquecido. Quando você zomba de algo, ao menos se espera que faça o oposto. Se não, vira uma declaração de culpa, uma “vacina” a críticas.

Claro, isso não significa que este Mortal Kombat II seja um filme terrível. Apenas frustrante, dentro deste cenário e de seus melhores momentos nos iludirem com um encantamento que desvanece. Em cotejo com seu antecessor, é uma evolução integral.

A começar, bem, por ao menos termos um combate mortal aqui. Além disso, há um panteão de personagens melhor escalado e distribuído. Mesmo a indefinição do protagonismo - que flutua entre Cage, naturalmente magnético por possuir o ator mais famoso do elenco, um leve e galhofeiro Karl Urban, mas também o Liu Kang de Ludi Lin, com as melhores cenas de ação; além da Kitana de Adeline Rudolph, que carrega o maior peso dramático da trama e interliga todos os atos da película - contribui para o desenvolvimento e a gratificação de acompanhar os personagens.

Um torneio talvez fosse simples demais para sustentar toda a narrativa. Ainda assim, as artimanhas que o roteiro encontra para inflar sua duração e gravidade pouco beneficiam o filme. O diretor Simon McQuoid claramente ganhou mais experiência, mas ainda parece bastante distante da figura ideal para tal projeto. São alguns passos à frente em relação ao anterior, mas vários que permanecem estagnados. Em um filme tão focado em combates, é irritante - e além de decepcionante - que grande parte deles seja filmada com baixo contraste e pouca criatividade.

Voltando ao ponto inicial da crítica, as escolhas estéticas da direção e da fotografia são visualmente mortas e autossabotadoras. São lutas noturnas, em ambientes mal iluminados e arquiteturas monocromáticas. Escondem-se as coreografias sem justificativa que não seja camuflar efeitos defeituosos - que, fora isso, parecem bem competentes, como nas lutas iniciais supracitadas - ou somente seguir esse hábito pandêmico do blockbuster contemporâneo.

Fazendo uma analogia com a barra de vida dos personagens nos games, este Mortal Kombat II mantém energia total por um tempo, e aí vai rapidamente a esvaziando, com pequenas passagens que dão uma reerguida para então voltar ao ponto anterior. Há melhora, momentos marcantes e muita referência aos fãs dos jogos. Mas nada incomoda mais do que aquilo que frustra; o que sugere algo melhor para então retornar a velhos e previsíveis vícios. O filme reconhece seus defeitos, mas não consegue fugir completamente deles. 

Ao fim de suas quase duas horas, Mortal Kombat II deixa claro que o padrão-ouro para adaptações da franquia segue sendo Mortal Kombat. Talvez beneficiado por seu tempo, mas ainda o único que, mesmo com o acanhado orçamento, não teve vergonha de abraçar o exagero gráfico cartunesco que os jogos pedem. E, claro, com aquela trilha sonora matadora que compositor nenhum conseguiu substituir.

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