Star Wars: O Mandaloriano e Grogu (2026) - Crítica

Nessas últimas semanas, andei vendo Andor. Já fazia algum tempo que estava desanimado com Star Wars. Na verdade, a franquia sempre foi coadjuvante em minha preferência, melhor preenchida pelo universo de Tolkien e por bastante nostalgia de Harry Potter. Mas o fator evento e a onipresença da marca criada por George Lucas geravam interesse automático em seus lançamentos. Quando isso mudou? Muitos atribuem tudo à Disney, mas seria injusto. A derrocada imperdoável foi no episódio IX, Ascensão Skywalker, um filme miserável e, pior do que ruim, covarde. Uma resposta birrenta e infantil para anular o ousado Last Jedi, por causa da choradeira de fãs que pouco compreendem o núcleo da história que dizem amar.

Foi uma ruptura meio geral, percebo. E, apesar de ter gostado das duas primeiras temporadas de Mandalorian, não deixa de ser um material menor, para a TV. Talvez esse fosse o futuro da franquia: escala e ambições menores no streaming. A patética minissérie de Obi-Wan não ajudou em nada, tampouco a vazia terceira temporada de Mando e, bem, eu estava em paz na ausência da saga das estrelas.

Mas aí eu resolvi assistir a Andor. E que escolha da qual sou grato. Tudo começou despretensiosamente, no avião, por falta de melhores opções e alguma reminiscência dos muitos elogios na internet. Assisti aos dois primeiros episódios, gostei moderadamente, mas acabei deixando de lado por uns meses, período em que fiz intercâmbio e foquei pouco no audiovisual. Na volta, após algumas semanas, lembrei-me dela e, com muito tempo livre, por que não terminar? O que começou com interesse se tornou fascínio e admiração. Isso não era Star Wars, era melhor, mesmo rejeitando sua iconografia mais clássica.

Claro que a temática original de Lucas, de rebelião antifascista, segue lá, mas nunca com tanto peso, profundidade e maturidade. O Império nunca foi tão detalhado, e o ódio das pessoas, tão justificado fora de um maniqueísmo narrativo pueril. Além de conversar com a realidade contemporânea, há uma expansão indescritível que melhora não somente Rogue One, como também a trilogia clássica. Todas as pessoas que se sacrificaram para Luke se tornar o herói ganham rostos, nomes e histórias. Aliás, esse papel de salvador soa pretensioso e aborrecido perante as nuances que vemos em figuras emblemáticas, falhas e tão identificáveis quanto Luthen e Cassian Andor.

Claro, nem tudo pode ser Andor, pois, assim, nada seria. Star Wars possui grande apelo infantil, e o teor de Andor naturalmente o torna menos comercial e palatável aos mais novos - para ser simpático. Não podemos esperar isso. Entretanto, sua proximidade em minha memória não deixou de ser um lembrete tão frequente e impiedoso conforme fui assistindo a O Mandaloriano e Grogu: de volta aos esquemas mais monótonos e inférteis da franquia. Filoni e associados tentando provar que a saga pertence e merece ser vista na grande tela. Seu conceito a torna, normalmente, uma catarse técnica em um cinema robusto. Mas e quanto à história? É isso que muita gente parece ter se esquecido com o tempo. Não basta trazer uma marca em seu título. É preciso sustentá-la.

Filoni e Favreau superestimaram seu amor por Din Djarin, obviamente. Uma sequência de uma série de três temporadas, cuja última foi justamente a mais fraca - de longe. Pouco se ouviu do filme nos meses que o antecederam, para não falar nas salas bastante vazias para um lançamento de tal porte. Por mais que se torça por seu sucesso, para que não somente novos Andor surjam, mas também novos Vingança dos Sith, Império Contra-Ataca e, por que não, as primeiras e refrescantes temporadas de Mando.

Há uma faca de dois gumes em Grogu. A série se tornou refém da adorável criatura. Eu mesmo só fui atrás dela após ver tanto do então “Baby Yoda” nas redes. Os efeitos práticos e a caracterização estão entre os melhores que já vimos na saga. E, claro, veio o sucesso comercial. A história de Star Wars está interligada ao merchandising. Mas nunca foi tão dependente de um único elemento para furar a bolha e embalar datas festivas.

Ele chama atenção, é uma presença fascinante e carismática em tela. Cada momento seu neste filme arranca sorrisos e suspiros do público. Porém, o arco de Grogu já deveria estar finalizado e, na indecisão da Disney, que sabotou e readaptou a série The Mandalorian para trazê-lo de volta, ele foi estagnado e transformado num pet, assim como aqueles que as princesas da Disney possuem.

Assim como aconteceu recentemente com Moana 2 - uma série transformada às pressas em filme para dinheiro fácil -, é nítida a estrutura televisiva de Mandaloriano e Grogu. São pequenos arcos, com início, meio e fim, e um pequeno norte ao final. Todos, porém, completamente antagônicos a Andor em aspectos de seriedade e risco. Em certo ponto, como supracitado, é aceitável reduzir a escala e mudar o tom. Fica complicado, porém, quando você para de se preocupar com os personagens e seus destinos. 

É tudo muito fácil, muito garantido. Não é somente um problema da simplicidade da trama, mas também de seu ritmo cíclico e repetitivo. Pouco se avança, com intermináveis momentos e interações claramente enxertados no roteiro para esticar a duração de um longa.Tem seus momentos. A parceria e química entre Mando e Grogu é calorosa, bonita e cheia de graça. Para carregar um filme? Insuficiente. 

Se o filme chega perto de provar algo, é justamente o contrário da intenção da produção. Star Wars pertence, agora, ao menos por enquanto, à TV. E não há vergonha nisso. Andor é melhor que pelo menos dez dos doze filmes da franquia - Império e Vingança dos Sith são discutivelmente superiores. Vexaminoso é tentar forçar grandiosidade e impor relevância onde ela não existe. É um engodo, um desapontamento. Um movimento que satura o nome e incentiva os argumentos negativos de quem já desistiu.

A situação de Star Wars lembra a do próprio protagonista aqui, vivido por Pedro Pascal. No começo, foi um ator revigorante, cativante e charmoso. Porém, seu rosto se tornou tão rotineiro e frequente, com trejeitos, personalidades e visuais tão similares, que se desgastou. O que era atração virou antipatia. Como reverter isso? Reduzir e qualificar. Ou então se contentar em vender boneco.

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