As Ovelhas Detetives (2026) - Crítica
Já houve um tempo em que o cinema produzia fábulas infantis maduras para discutir temas sensíveis aos menores, com certo absurdismo e melancolia, sem subestimar o público. Filmes como Babe, o Porquinho, A Menina e o Porquinho e A Incrível Jornada frequentemente utilizavam animais falantes, interagindo com humanos ou apenas entre si, valendo-se do lúdico para atenuar temáticas que poderiam ser pesadas e até traumatizantes.
O cinema blockbuster atual, inflacionado e cínico, com crianças tendo tantos estímulos disponíveis, parece ter perdido essa capacidade. São raras as tentativas de se fazer longas assim, e me recordo, recentemente, de esporádicos acertos, como a trilogia Paddington e o primeiro Peter Rabbit - somente o primeiro, cabe dizer.
É um assopro poder ver um filme como As Ovelhas Detetives surgir em meio a tantos blockbusters vazios e realistas, ainda mais com tanto cuidado, carinho e um elenco bastante querido e carismático. É um resgate desse cinema perdido, agora com contornos de Agatha Christie, colocando as ovelhas como detetives de um legítimo whodunit após seu gentil e solitário pastor, vivido por Hugh Jackman, ser encontrado morto em uma manhã.
Todos os esquemas do gênero, recentemente popularizado pela trilogia Knives Out, estão presentes, mas com um toque de humor mais inocente: um vilarejo pequeno no interior da Inglaterra sem o hábito de enfrentar tais dilemas, um policial atrapalhado - vivido por ninguém menos que Nicholas Braun, o saudoso primo Greg de Succession - e habitantes divertidamente caricatos, cada qual com sua dose de suspeita, além do prazer de ver tantos rostos conhecidos. Temos Tosin Cole, de Doctor Who, Conleth Hill, de Game of Thrones, Molly Gordon, de The Bear, além de um elenco estelar nas vozes das ovelhas.
As ovelhas, aliás, são o grande charme e diferencial da película. Quem diria que essas criaturas poderiam ser tão cinematográficas? Dotadas de personalidade, elas rendem brincadeiras com a fama de tolas e obtusas, desconstruindo esse estereótipo ao mesmo tempo em que zombam de sua própria natureza, usando-a para debater e introduzir temas como luto, preconceito e a importância da memória para o amadurecimento, por mais doloroso que ele seja.
É um filme leve e simples, com um coração enorme, que resgata esse sentimento de alegria e melancolia dos primorosos Paddington, ensinando e entretendo na mesma medida, como uma exemplar fábula. Um pequeno tesouro iluminado em um oceano cada vez mais sombrio e monotemático do cinema.
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