O Convite (2026) - Crítica

Martin Scorsese, um dos maiores diretores de todos os tempos, certa vez disse que a escalação de atores representa de 85% a 90% da importância para a funcionalidade de um filme. Podemos debater isso, mas há razão em pensar que mesmo uma boa direção e um bom roteiro podem colapsar não somente diante de uma atuação ruim, mas de um miscasting. O nome certo é essencial para elevar a visão do realizador e, claro, vender a história - emocional e financeiramente - ao público. Assistir a longas como este O Convite, ou The Invite, no original, é um dos grandes exemplos do prazer de se assistir a um bom casting em ação, tanto nos nomes mais previsíveis para isso quanto nas surpresas.

Remake do filme espanhol The People Upstairs, The Invite foi muito comparado a Woody Allen por seu estilo focado em conflitos e diálogos interpessoais em ambientes fechados. É mais fácil, entretanto, compará-lo a outras películas do que a realizadores em si. A mera comparação com filmes que usam esse artifício mais teatral e limitado seria preguiçosa, mas diria que um começo honesto de conversa seria Carnificina, de Polanski. Mais frontal e aguçado do que egocêntrico e existencial como Allen, e sem o conhecido humor autodepreciativo do clássico cineasta.

Há muito a se elogiar em O Convite, como a direção de Olivia Wilde, cada vez melhor - também como atriz -, mas nada funcionaria sem um casting eficaz para tantas dinâmicas camaleônicas entre quatro personagens que têm de nos carregar por quase duas horas em um apartamento enorme, sim, mas ainda um ambiente bastante restrito.

E como é bom o casting. Edward Norton e Penélope Cruz são redundantes em sua maestria. A atriz, um aceno ao original espanhol, consegue sempre trazer uma energia e paixão imortalizadas no cinema de Almodóvar, enquanto Norton é implacável na forma como controla a tela e intimida ao mesmo tempo em que é hilário. Seu monólogo, escrito pelo próprio ator, é um deleite de seu alcance.

Mas, bem, o diferencial seria algo menor do que a excelência desses dois. E essa unilateralidade diminuiria o filme em si. Com personas tão impositivas e dominantes, a escolha correta do contraponto para se encaixar na dinâmica necessária pelo roteiro é tão importante quanto. E Rogen e Wilde conseguem transmitir a fragilidade e a vulnerabilidade necessárias para causar a tensão e o constrangimento do texto, tão mutável na forma como flutua do hilário para o trágico subjacente nos diálogos.

Wilde, inclusive, que evolução e que surpresa. Parece já se estabelecer como diretora, além de mostrar confiança e alcance como atriz, algo impensável em seu início de carreira. Mesmo em um apartamento tão grande, o trabalho de câmera e blocagem é inteligente e revelador para expressar as relações emocionais dos personagens e também manter o ritmo de um filme que poderia, de outra forma, ficar entediante e repetitivo.

O filme merece uma segunda conferida só para conseguir captar todas as dicas visuais que Wilde dá, entre quartos e mobília, sobre a psique de seus protagonistas. Cômodos enormes que encolhem e divisórias que ilustram a ruptura íntima ou a proximidade, de acordo com o momento; não há plano ou frame desperdiçado na narrativa, tudo com intuito de storytelling.

São artifícios que argumentam e ressaltam O Convite como cinema de alto nível, e não um teatro filmado, difamação frequente a esse tipo de filme. Talvez o longa seja mais convincente como arte e história do que como mensagem, navegando com frescor e êxtase entre a comédia e a tragédia, embora menos inspirador em discussões espirituais. Mas a própria eficácia com que consegue nos prender por 107 minutos assim já é suficiente para gerar conversas, reflexões e colocá-lo entre os melhores do ano.

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