Blue Lock Live-Action (2026) - Crítica
Eu poderia começar essa crítica falando do quão desnecessário e vazio é adaptar filmes de animação em live-action; e aqui falo de animações no geral, não só animes; que isso desrespeita o material original, como aquele povo que relega animações para crianças, e sempre, sempre mesmo, até quando o live-action se propõe a algo novo, o que é raro, o resultado sai ou inferior, ou um desastre. Mesmo um Como Treinar o Seu Dragão, que copia e cola as cenas da animação, possui todo seu valor nos méritos da animação, o que inutiliza sua existência, fora um dinheiro fácil. E aí temos os ofensivos, como O Rei Leão e Moana. Mas já cansei de debater este assunto.
Para algumas obras realistas até funciona, e sempre usarei os exemplos de Rurouni Kenshin, que teve 5 filmes ao todo e que trabalham bem como um drama histórico mais calcado no crível, fora os histrionismos e caricaturas de certos personagens, que fazem parte de uma linguagem bem própria da cultura mangá/anime e soam cringe em live-action.
E aí chegamos a Blue Lock, o fenômeno criado por Muneyuki Kaneshiro e Yusuke Nomura, que já vendeu mais de 65 milhões de volumes e se tornou mundialmente conhecido. A essência de Blue Lock, por si só, já é bastante cartunesca, dependente da linguagem do animangá para atingir sua plenitude. Se há duas vertentes de animes de esporte; uma mais realista, como Slam Dunk e Haikyuu, e outra inclinada à fantasia, como Kuroko no Basket, Blue Lock é certamente parte do segundo grupo, o que por si só dificulta sua adaptação.
Blue Lock não apenas abraça o absurdo em sua retratação do futebol, como a obra leva muito a sério seus conflitos, o que então inviabiliza uma abordagem como Kung Fu Futebol Clube, hilário, divertido e intenso, mas que funciona por assumir seu lado surrealista.
Blue Lock ainda vai além, pois, das obras esportivas que conheço em mangás e animes, é a mais extravagante e ridícula em sua plot, necessitando de uma suspensão de descrença forte pra sequer abraçar sua história, que, pra quem não sabe, consiste num novo projeto da JFA e do governo japonês para fazer o Japão ganhar uma Copa do Mundo após o fracasso na Copa de 2018, abandonando sua assinatura de futebol coletivo e juntando 300 jovens atacantes na prisão azul, Blue Lock, em que somente um poderá sair vencedor: aquele que for o mais egoísta. É um Battle Royale de futebol.
A partir disso, a obra vai desenhando seus conflitos em exames e etapas, explorando arquétipos e novos personagens desafiantes ao protagonista Yoichi Isagi, que primeiramente parece um rapaz tímido e desinteressante que vai desbravando seus talentos.
Eu acho um anime bastante imbecil, pois, além de ser uma ideia desvairada, em nenhum momento o roteiro consegue segurar e manter esta ideia de futebol individual e de um craque ser suficiente, descartando o resto, tanto que o segundo teste já consiste em jogos 11 contra 11, e os personagens descobrem que, para vencerem, vão precisar trabalhar em equipe, e os que abdicam dos companheiros para buscar a glória individual são sempre punidos com derrota ou exclusão. Ou seja, a resposta para o problema da falta de competitividade maior do Japão não se sustenta nem nos primeiros momentos, algo que já era óbvio para qualquer um que acompanha o esporte.
Ainda faria sentido se a busca do projeto fosse fazer com que o coletivo reforçasse as qualidades individuais mais fortes do indivíduo, que então trabalharia seu talento para ajudar o coletivo, um mote bem tradicional na cultura japonesa e coreana, que foram sociedades erigidas no pensamento do coletivismo confucionista e por sacrifícios pessoais em prol de desenvolvimento rápido após a Segunda Guerra. Mas não, o roteiro, através do mentor do projeto, o maníaco Jinpachi Ego (nome já nada sutil), que, em qualquer grupo normal, seria ridicularizado e isolado por seu comportamento e personalidade, reforça constantemente a fraqueza da generosidade e a impulsão de quem busca se destacar acima de tudo.
Blue Lock, como live-action então, surge com diversas desvantagens narrativas em relação ao anime, em que essa trama absurdista e os trejeitos de animação, com os arquétipos dos personagens e sua obsessão em meio a uma situação extrema e de vida ou morte (no sentido de que os eliminados jamais poderão ser convocados para a seleção, ou seja, a morte do sonho máximo do desportista), divertem e empolgam por elementos ampliados e intrínsecos da animação, especialmente as características japonesas. As reflexões que parecem parar o tempo e o espaço conforme os personagens tentam descobrir ou entender algo; as metáforas visuais, como um personagem quebrando correntes para se libertar e abandonar seu medo. As propriedades antifísicas que os artistas usam para gerar momentos icônicos e marcantes tanto nas jogadas e qualidades dos jogadores quanto na movimentação da bola; dribles, chutes, passes.
Mesmo rindo e desacreditando de início do enredo de Blue Lock, o anime funciona como entretenimento por sua intensidade e convicção em abraçá-la como a resposta definitiva e natural para o sucesso do Japão na Copa do Mundo. Com personagens carismáticos, mesmo quando unidimensionais, seguindo as fórmulas do shonen em superação e aprendizado, o anime faz sucesso especialmente por como ele não parece com futebol, e nem entrarei aqui também na questão do bishonen ou do yaoi para não me prolongar nem divagar muito sobre temas específicos que contribuem para o sucesso da obra com públicos variados.
A única vantagem clara do filme, que adapta o primeiro cour do anime - 12 episódios -, é mesmo o tempo, mais direto e frontal, sem tantas delongas e enrolações típicas da mídia do anime, em que, por vezes, grande parte de um episódio foca nas meditações de um jogador sobre uma única jogada - quase um Namekusei futebolístico. E mesmo o tempo também tem seus contras, sacrificando boa parte dos personagens, que acabam tornando acompanhar o anime intrigante e satisfatório. Aqui, enquanto a maioria é completamente apagada, figuras que são arquétipos comuns de animes, como Nagi, soam perturbadores e insossos. Há também a perda completa do impacto nas cenas de futebol em si, filmadas sem intensidade e lentas, enquanto os momentos que dependem de efeitos especiais são distinguíveis e cômicos, traindo a essência séria do anime.
É difícil imaginar Blue Lock funcionando para quem não curte animes e mangás e desconhece a original. E, para os fãs, fica difícil encontrar motivos para escolher reviver a obra que curtem, empobrecendo cada fator do que a faz eficaz.
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