Pressão (2026) - Crítica
Eu gosto de dizer que tudo pode virar cinema, tudo mesmo, e bom cinema. E, mesmo assim, ainda sou surpreendido. A primeira vez que ouvi falar de Pressão, novo filme de Anthony Maras sobre a previsão do tempo para o Dia D, confesso que fiquei cético e desconfiado de sua potencial qualidade. “Esgotaram as ideias de filmes sobre a Segunda Guerra Mundial, mas não vão parar de extrair leite do conflito” seria uma transcrição certeira de meus pensamentos.
Mas que péssimo cinéfilo eu fui, para não falar admirador de história. Pois Pressão, quem diria, não somente é um bom filme, como serve de fonte de gatilho e conhecimento para um assunto e bastidores com os quais jamais grande parte do público teria contato ou interesse de outra forma. E eu respeito e gosto muito de obras que nos permitem não somente a transposição emocional ou escapista para histórias e mundos que não viveríamos de outra forma, mas também nos educam ou informam da realidade.
Pressão não deixa de ser uma trilogia informal sobre bastidores de grandes eventos e mudanças, ao lado de O Jogo da Imitação e Oppenheimer. Homens negligenciados em meio a tempos maiores que eles, mas que desempenharam papéis tão cruciais não somente para a Guerra, mas para o progresso tecnológico do futuro. Se J. Robert Oppenheimer e Alan Turing conseguiram produções mais notórias e se tornaram nomes mais comuns ao público, é provável que o mesmo não aconteça com James Stagg, protagonista aqui vivido por Andrew Scott, mas é inevitável sair da sala com respeito e encanto pela influência de sua ação em um momento regularmente glamourizado pelo impacto bélico na cultura pop, bem como pela gênese da previsão do tempo moderna.
Baseado numa peça escrita por David Haig, que também é roteirista aqui, Pressure serve como um bom exemplo tanto dessa questão de como ignoramos elementos pequenos e sua influência no mundo como também da eficácia da sétima arte em nos comover das formas mais improváveis. É natural pensar que uma temática dessas, passada majoritariamente em escritórios e salas a salvo da tragédia e brutalidade do campo de batalha, seria monótona e burocrática, mas Pressão, em seu roteiro afiado e direção dinâmica, é bastante impressionante ao transmitir a escala de urgência e, por si só, épica de tal decisão, começando a trama em espantosas 72 horas antes do ataque previsto.
Como obra textual e teórica, aliás, Pressure funciona muito melhor do que quando busca retratar a guerra de modo mais tradicional. O filme adere a certos esquemas, como um conflito de ideias e personalidade entre dois dos principais meteorologistas: o americano expansivo e carismático Irvick Krick, vivido por Chris Messina, e o escocês frio, soturno e carrancudo James Stagg, vivido por Andrew Scott. Não deixa de ser uma fórmula esquemática do cinema mainstream para manipular emoções, simplificar e sintetizar decisões, assim como Chernobyl fez ao centralizar vários personagens em poucos mais importantes. Como cinema e criação de atmosfera, não se pode negar sua funcionalidade em estabelecer, mesmo que maniqueistamente, o certo e o errado, o genial e o preguiçoso.
O roteiro assume a falta de sutileza para tornar empolgante e tenso um assunto que é tradicionalmente visto com tédio, e conta com atuações certeiras para não cair em caricaturas e superficialidades. Andrew Scott, de quem gosto muito desde seu Moriarty na minissérie Sherlock, tem ganhado um tardio e merecido destaque no cinema após passar despercebido pelo estrelato de seus colegas de elenco de então, Martin Freeman e Benedict Cumberbatch. Ele interpreta Stagg com rigidez e distanciamento, mas sabe transmitir janelas de sensibilidade para não tornar o personagem antipático. Brendan Fraser cresce durante o filme como o Comandante Eisenhower, que futuramente viria a se tornar Presidente dos Estados Unidos da América. Se seu físico e estatura oferecem a imponência que pede uma figura de comando, seus olhos e expressões são os que o fizeram tão querido: sensíveis e vulneráveis.
Se a impressão inicial era pessimista, de uma obra tratando de um tema exaurido, Pressão consegue com louvor dissipar desconfianças e oferecer algo parcialmente novo de onde não imaginávamos. Apesar de destacar como nunca antes o trabalho dos meteorologistas, é também uma grande prova do valor do cinema e de contar histórias.
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