Harry Potter e a Pedra Filosofal e o Tempo
Harry Potter e a Pedra Filosofal voltou aos cinemas para o aniversário de 25 anos, em um ano muito especial para a franquia, com o lançamento da série previsto para o Natal deste ano, além de 12 minutos de cenas inéditas nunca vistas antes.
Essa, inclusive, foi uma reclamação constante que eu tive com os filmes de Harry Potter: a falta de versões estendidas. Somente os dois primeiros filmes tiveram lançadas versões com cenas extras no home video, mas nada do restante. Isso sempre foi comum e enriqueceu obras, especialmente O Senhor dos Anéis, que possui horas a mais nas versões estendidas/do diretor.
Talvez o fato de ser uma franquia mais obra do estúdio e de produtor do que de diretores que idealizam e comandam toda a saga contribua para isso, mas as cenas estão lá, terminadas ou não, e era só se esforçar para fazer esse agrado aos fãs, quem sabe até enriquecer os filmes. Mas enfim, voltando a A Pedra Filosofal.
Será que o filme se sustenta hoje, duas décadas e meia após sua estreia? O mundo mudou bastante. Naquela época, filmes de fantasia eram ridicularizados e relegados à categoria B, normalmente direto para vídeo, de baixo orçamento. 2001 foi o ano da mudança, especialmente um período de um mês ali entre novembro e dezembro, com os lançamentos de Harry Potter e a Pedra Filosofal e O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, produções caras e bem elaboradas que conseguiram um enorme retorno financeiro e estabeleceram a fantasia como altamente lucrativa e também respeitável como arte, especialmente a trilogia O Senhor dos Anéis, sem desmerecer a saga baseada na obra de J. K. Rowling.
Tanto que depois tivemos uma enxurrada de filmes tentando surfar nessa onda, com estúdios minerando bibliotecas e livrarias atrás de obras similares, e editoras lançando livros e novos autores em busca do ouro. A maioria deu errado, como Eragon e A Bússola de Ouro; outros deram certo até um ponto, como Nárnia, ou seguem firmes até hoje, como Jogos Vorazes. E tudo começou e ganhou ignição neste finalzinho de 2001, estabelecendo Harry Potter como uma franquia multimídia bilionária, uma das marcas mais consolidadas e rentáveis da história, com parques temáticos e todo tipo de merchandising.
Mas outra coisa que mudou bastante, e dessa vez para pior, foi a repercussão e a imagem da franquia globalmente, algo totalmente influenciado pela postura de J. K. Rowling e sua vida pública. Antes vista como inspiração, admirada e respeitada por sua criatividade e persistência, palestrante em universidades e exemplar para crianças, adolescentes e jovens autores, a guinada da autora para uma agenda anti-trans, que se tornou progressivamente uma obsessão monotemática, passou a acompanhar e afetar o consumo de qualquer coisa atrelada a ela - logo, Harry Potter. Tornou-se comum atacar fãs e produtos da marca, bem como pessoas que passaram a querer, injustamente aí, desmerecer o mérito criativo que a série teve em sua época, caçando preconceitos e estereótipos, além de outras referências e acusações de plágio bastante oportunistas e anacrônicas.
E, apesar de tudo isso, Harry Potter, maculado ou não, segue firme e forte, com uma fanbase consolidada e uma nova que não para de surgir.
Uma coisa que eu me pergunto é qual será a influência desta série no imaginário popular. Até hoje, só tínhamos uma imagem para associar aos nomes dos livros. Uma Hogwarts, um Harry, um Dumbledore... Agora, teremos concorrência. Com as gerações que cresceram com o lançamento original das obras, é óbvio que não tem como comparar o efeito que a série terá, afinal, Harry Potter é uma saga infantojuvenil, e o apego e a nostalgia nunca serão comparáveis, mesmo que a série seja boa e gostemos dela. Ela terá, também, muito mais tempo de tela para mostrar cenas, momentos e personagens que foram ignorados ou alterados nos filmes. Logo, certas figuras se tornarão unicamente associadas à imagem que terão na série.
E, apesar de torcer demais pela mesma, que consiga cativar e fazer magia para um novo público, uma coisa é certa: ela nunca terá o impacto e a importância cultural que ligar a TV, o DVD, o VHS ou ir ao cinema teve naquele começo de século em que, pela primeira vez, vimos a cicatriz e Hogwarts em tela. A série carrega um peso indigesto de fazer jus, mas também carrega mais confiança e condescendência, enquanto os filmes trouxeram muitos riscos, mas também o privilégio de uma sociedade ainda pré-digital e sem o veneno que consome as redes sociais.
Passado todo esse tempo, em retrospecto, que bom que Harry Potter saiu lá, e, entre acertos e erros, que foi como foi, e isso só aconteceu por ter sido feito em seu tempo.
A começar pela escolha criativa de iniciar essa jornada. Tanta coisa poderia dar errado em Harry Potter, e logo do início. Se atrelar a um diretor ruim, um roteirista fora do tom e, especialmente, um elenco infrutífero. É difícil, basicamente impossível, escalar jovens crianças ainda imaturas para serem o rosto de uma marca que deverá marcar uma geração e crescer em tela. Tanto que nem Harry Potter acertou em cheio, como, por exemplo, com Bonnie Wright, a atriz de Gina Weasley. Mas o trio, a despeito de sua carreira posterior, teve papéis dignos e inseparáveis como Harry, Rony e Hermione, assim como Draco, Neville, o inicialmente ignorado Harry Melling como o desprezível Duda Dursley e outros. Como achar a criança certa em meio a dezenas de milhares? Alguém poderia ter feito melhor, talvez, mas não seria justo pensar em nenhuma mudança inicial - fora, novamente, a pobre Gina.
Não poupar com o elenco adulto foi um acerto, dotado de mestres da dramaturgia britânica, nomes do mais alto escalão para servir de mentoria e exemplo aos pequenos: Richard Harris, Alan Rickman, Maggie Smith e, para nunca esquecer, Richard Griffiths e Fiona Shaw, brilhantes e facilmente detestáveis como os mesquinhos e caricatos tios de Harry.
E aí vem o papel técnico. Steve Kloves, o roteirista, vinha de pouca experiência, mas de uma indicação ao Oscar por Garotos Incríveis e do dificílimo dever de trazer o diretor.
Vários nomes foram considerados, como Terry Gilliam, Robert Zemeckis e Steven Spielberg como primeira escolha, mas que optou por IA, deixado interminado por Stanley Kubrick. Foi basicamente Columbus que se escalou e convenceu o estúdio e o produtor David Heyman, reescrevendo o roteiro e despejando ideias para sua composição. Ajuda também sua familiaridade com um cinema mais inocente e infantil e afinidade com crianças, tendo no currículo a direção dos dois primeiros Esqueceram de Mim e o roteiro de obras seminais que mesclam esse conceito de magia com juventude, como Goonies e Gremlins. Ou seja, o cineasta trazia também personalidade e emoção reais a suas histórias. Apesar de ter cimentado seu nome ali e ser muito subestimado hoje em dia, poucas escolhas seriam tão acertadas para os primeiros filmes quanto Columbus.
Novamente, alguém poderia ter feito melhor, mas isso jamais saberemos, e a certeza que Columbus trouxe, como ele estabeleceu conceitos visuais, ideias e deu o tom deste mundo, fazendo-o tão encantado e maravilhando gerações, foi primordial para a franquia sair da dúvida para a certeza e ser o que é hoje.
A saída de Columbus por cansaço após o segundo filme abre brechas para especulação, já que Cuarón fez, para muitos, o mais autoral e conceitual filme da franquia em Prisioneiro de Azkaban, mas, para o clima e teor dos dois primeiros livros, a assinatura de Columbus casa bem. São livros de afirmação, calcados num espírito romanesco e em todas as suas tradições, muitas destas básicas e conhecidas, mas enriquecidas pela visão expansiva de Rowling, que, com referências de séculos, conseguiu trazer exclusividade e vida própria a seu mundo.
O combo de Kloves e Columbus fez as adaptações mais pé no chão e fiéis da franquia, e muitos o subestimam por isso. Mas não podemos dizer que foi um erro. Era tudo novo, zerado, e trabalhar em cima do que já foi apresentado é muito mais fácil do que criar algo, que foi o que o time fez a partir de A Pedra Filosofal. O Quadribol, Hogwarts, os feitiços e o visual dos personagens se misturam a conceitos mais clássicos e mitológicos, como o Cérbero, vassouras voadoras e dragões, pincelados numa atmosfera medieval que ignora a tecnologia e a substitui por mágica.
Hogwarts, hoje, é um mundo pequeno. Rowling e a Warner fracassaram em expandir esse universo em Animais Fantásticos, talvez justamente por buscar tanto realismo e levar a magia ao mundo material, conhecido. Enquanto ali, em Hogwarts, espelhávamos o espanto de um jovem Daniel Radcliffe como Harry, encantados com tal escapismo. É um mundo isolado do tempo e do espaço, tão sobrenatural quanto uma Nárnia ou uma Terra-média. Mesmo sendo uma escola, o senso de descoberta e imprevisibilidade dava a seus terrenos, corredores e salas uma dimensão quase Tardisiana de infinitas possibilidades.
Columbus faz seu melhor para trazer o senso de camaradagem e despedida visto em Goonies, com a perversão e a marotagem de Gremlins para a inocência e periculosidade deste mundo. A ameaça de Voldemort é real, palpável e temível, por mais que alguns efeitos não se sustentem tanto hoje em dia, mas somente um cínico amargurado para focar nisso. Num mundo casto como é o Harry Potter de J. K. Rowling, os dois primeiros livros, mais contidos, introdutórios e leves, são um amálgama mais funcional e certeiro desta limitação ou desinteresse da escritora em aprofundar e ser mais legítima na condução adolescente dos personagens. Em A Pedra Filosofal há o privilégio de que o encanto por cada curva e descoberta já é o suficiente.
Um mundo novo, os fantasmas, escadas que se movem, criaturas mágicas, feitiços, tudo é um deleite de inacreditável novidade, ainda mais vindo de um cenário de opressão e exploração que Harry vivia com os tios - aliás, algo sempre retratado com humor, mas que, numa visão alternativa, se tornaria um drama adolescente à la Euphoria e Trainspotting, com um Harry traumatizado, rebelde e transtornado. A presença de John Williams, o mesmo orquestrador do deslumbramento, em um trabalho criminosamente negligenciado entre seus melhores, é outro componente forte para transmitir essa sensação unicamente mágica, que fez tanta falta após sua saída, a partir do quarto filme.
Até mesmo o Natal ganha contornos especiais em suas composições, para não contar os eternos momentos do primeiro relance em Hogwarts, do Lago Negro, ou os raros e bem-vindos respiros introspectivos de um Harry embasbacado: ao acariciar Edwiges da janela aberta do salão comunal da Grifinória, sozinho à noite, ou o voo da coruja no pátio da escola que marca a transição das estações. São respiros raros num filme de atos bastante protocolares e que quase esquece de aproveitar a rotina em meio a eventos significativos.
A partir de Prisioneiro de Azkaban, especialmente, uma visão mais ampla e madura seria naturalmente necessária, em termos diegéticos e não. Há a ampliação interna que vem com Azkaban, os marotos e Hogsmeade, mas também a hormonal dos personagens, e nunca saberemos como seria a visão de Columbus, que pediu para sair após o segundo filme por exaustão. Mas Cuarón fez o melhor trabalho da série, que depois tropeçou um pouco, por mais consistente que tenha sido, em visões de diferentes autores.
É impossível dissociar um capítulo do resto da saga. Harry Potter será um todo. Mas, dentro de uma análise de junção técnica e emocional, A Pedra Filosofal sempre servirá como uma esfera à parte dentro da imagem de Harry espelhando o público em encantamento. A série terá mais tempo para cultivar relações e explorar esse mundo, mesmo em seu tédio escolar, enquanto, no filme, pela limitação do cinema, mesmo as classes enfadonhas e rígidas são um vislumbre rápido e entrecortado de espanto, fascínio e deslumbramento.
Com o tempo, talvez perca o sentido essa celebração frequente dos aniversários de todos os filmes da saga, a não ser para os fãs mais fervorosos. Mas, assim como se comemoram as décadas de clássicos ou filmes marcantes, talvez nenhum faça tanto sentido de se manter no calendário quanto a história que marcou isso tudo. Que, mesmo com suas escolhas datadas, envelhece sem ser sobrecarregada pela poeira do esquecimento, nem pela mácula de sua autora. Harry Potter se desconecta de autor, estúdio e até diretores, para se tornar um estandarte cultural representativo de seu tempo e geração.
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