Cavalo Selvagem Nove (2026) - Crítica
Existe limite para até onde levar o humor no cinema, ainda mais quando lidando com um assunto real? Quer dizer, nós já tivemos paródias hilárias sobre temáticas históricas, com destaque para Dr. Strangelove e A Morte de Stalin. Recentemente tivemos Digger, que, apesar de não ser baseado em eventos, reverbera um imaginário coletivo para discutir assuntos bem prementes e contemporâneos. Mas, veja bem, são todas paródias que satirizam e retratam com absurdo o tema criticado.
Faço essa questão, pois o novo filme de Martin McDonagh, Cavalo Selvagem Nove, usa personagens fictícios em um evento historicamente factual, e realmente envolvidos em seu ocorrido. Seria diferente de um Era Uma Vez em Hollywood, que usa do mesmo artifício e altera a história, mas não a provoca, com figuras que passam a maior parte do tempo à parte daquilo tudo e, no fim, a modificam para o bem. O análogo seria caso Tarantino fizesse o longa da perspectiva da Família Manson, retratando-os com humor e leviandade.
O que McDonagh faz é levar sua trama e personagens ao Chile imediatamente pré-golpe militar de 1973, com a deposição e morte do presidente eleito, Salvador Allende. E, ao contrário de Tarantino, os protagonistas aqui, vividos por Sam Rockwell e John Malkovich, são agentes infiltrados da CIA, com o objetivo flagrante, como um deles mesmo diz, de desestabilizar a democracia e instaurar um regime ditatorial pró-EUA no país.
Confesso que foi um dilema que ficou em minha cabeça durante toda a projeção. Trouxe-me ecos de Jojo Rabbit, o polêmico, mas premiado filme de Taika Waititi, que, apesar de criticar o regime nazista, pinta com certa suavidade e graça… Hitler. Lembra-me também nosso glorioso Glauber Rocha quando comentou sobre a estética da fome, que mostrava a miséria, mas não a fazia compreendida. Sendo, para o espectador europeu, um exercício de nostalgia ao primitivismo e ao ego superior de um povo subdesenvolvido e exótico.
Ninguém questiona a intenção de Martin. Ou do elenco. O diretor e roteirista, assim como sua estrela, deram entrevistas falando de como o filme ainda repercute no presente, e McDonagh diz tê-lo feito pela raiva que sentiu, ainda jovem, ao ler sobre a interferência da CIA para quebrar a democracia de toda a América Latina.
Mas como isso é feito? É, bem, um filme de Martin McDonagh facilmente reconhecível, caso você seja familiar ao artista. O núcleo, esqueleto de todos os seus filmes, por roteiro e direção, está ali. Esse drama que mescla um humor ácido com uma profundidade explorada por personagens, no geral, grossos e rabugentos, em meio a rituais de violência banalizada. Há sempre essa parceria meio bruta, mas implicitamente emocional, entre duas figuras. Outra base de seu cinema está nos títulos literais. In Bruges, que se passa em… Bruges. Ou Os 3 Billboards em Ebbing, Missouri. Não há, entretanto, uma razão para o 9 do título, apesar de vermos muitos cavalos selvagens não numerados em cena.
Aí é que vem meu conflito. Grande atuação a de Sam Rockwell, um parceiro frequente do diretor, assim como Malkovich renasce das cinzas de um ostracismo injusto para ter a provável melhor performance de sua carreira. Agentes parceiros há sei lá quanto tempo, vão passar uma folga na Ilha de Páscoa, onde desdobramentos vão pesando um pouco mais a escolha do local, assim como as intenções dos personagens. Veterano da casa, o personagem de Malkovich está nessa fase Sílvio Santos e sem filtro, e fala abertamente sobre suas ações em Cuba, Vietnã e no Congo a quem quiser ouvir.
O personagem, chamado Chris, está com problemas de memória e é uma bonança para o roteirista. Além de todo seu repertório militar, o personagem tece longos monólogos sobre dinossauros e explicando que democracia torna países gays, que então fazem bom queijo. É legal ver um ator, obviamente talentoso, mas esquecido há muito tempo, que já parecia abandonado e sem oportunidades de expor suas habilidades, brilhar assim. Ele diverte, é sarcástico e afrontoso, transita entre o besteirol e uma filosofia de boteco curiosa. Mas há toda uma melancolia intrínseca, pela idade e pela doença que carrega, muito bem imprimida por seus olhos e expressões.
Mas há uma questão a ser refletida aqui: nós gostamos e nos apegamos a Chris, torcemos por ele. Damos risada com ele. E com Lee, de Rockwell, também, apesar das diferenças de personalidade. Porém, eles não somente são agentes da CIA que assumem mortes e golpes de Estado, como estão na ativa orquestrando um. E um que realmente aconteceu, teve efeito e, por quase duas décadas, freou o desenvolvimento do Chile. Que levou à morte, tortura e exílio de centenas de milhares. De onde surgiu a trágica e infame Operação Condor. Será que deveríamos gostar desses caras? Não é sobre aprovar atitudes, é sobre gostar mesmo.
Há uma ideia, um conceito por trás do texto de Martin. A exposição do ideal por trás das ações da CIA. Como ela se volta aos agentes, impiedosamente, assim que perdem sua utilidade, a despeito do tempo e dos riscos dedicados. Não há ética, há execução de acordo com o benefício e a utilidade. Mas aí percebe-se que não há, de fato, uma redenção e um arrependimento de ambos. Nem se discute a banalidade do mal, do seguidor de ordens, como cunhou Hannah Arendt. Durante o filme mesmo, há momentos que expressam aquela arrogância e senso de superioridade americano, desprezando os nomes nativos da Ilha de Páscoa e suas esculturas. Ou a normalização indolente com que descrevem um golpe de Estado a uma chilena, sem remorso ou preocupação. É culpa deles. “Para começar, volte no tempo e mude o voto”, responde Chris a uma chocada estudante que pede como parar aquilo tudo. Ele também diz, de modo simplista, que se preocupa mais com as mariposas que com os chilenos.
Não é sobre fazer personagens bonzinhos. Jamais. Os mais interessantes tendem a ser os problemáticos. Os Walter Whites, Tony Sopranos. Mas que se assumem assim. O que me deixa pouco amistoso é representá-los com tal humor e afabilidade. Como o Hitler de Taika. Parece, como disse Glauber, algo feito para ser consumido de modo frio e ególatra pela esquerda elitista e burguesa do Hemisfério Norte. Sem tanta importância, que nos veem como inferiores e descartáveis, soldados para mantê-los com seus privilégios, democratas ou não. E, novamente, isso me faz pensar no glorioso encerrar de Digger, um filme tão criticado e esnobado, mas que vem crescendo em minha opinião. Essa responsabilidade passiva do espectador e da arte, sem efeito prático de mudança social real. Você consome algo com que concorda, você ri, esbraveja, desabafa e segue a vida.
Não quero ser injusto, é claro. Cavalo Selvagem Nove, se você consegue descartar isso tudo, é bem filmado, é divertido. Eu mesmo não contive o riso, hilário e em bom som, em várias cenas. As atuações são soberbas, e a de Malkovich, até aqui, talvez seja a melhor masculina do ano. O texto é afiado e tem momentos de muita inspiração. A fotografia é bonita e explora a atmosfera bucólica da Ilha de Páscoa, um contraste irônico com o banho de sangue que virá a seguir. Mas, mesmo assim, percebe-se um início de saturação e repetição nas fórmulas de McDonagh, com o longa espelhando e mudando muito pouco da arquitetura de In Bruges, seu tom e personagens. É um caminho perigoso, esse que diretores como Wes Anderson e Tim Burton seguiram, sem se atualizar, reféns do mesmo estilo que lhes deu prestígio e destaque, mas terminou engessado e exaustivo.
Num debate entre forma e discurso, é inevitável recomendar Cavalo Selvagem Nove, que vai estar bem presente na temporada de premiações, e merecidamente. Mas são prêmios, de novo, justamente do povo que provocou, incentivou e financiou todas as ditaduras que atrasaram nosso continente e nos afetam indiretamente até hoje - mais forte do que nunca, aliás. Não sei a você, mas, a mim, é uma realidade muito presente, palpável e terrível para se fazer sentir simpatia, pena e risinhos inocentes.





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