Digger (2026) - Crítica

Falar de Digger é falar de ego. De Iñárritu, mas também de Tom Cruise. Inarritu, com 4 Oscars na estante, que sempre foi um diretor autoral, mas com o tempo parece ter se tornado vítima da própria vaidade, de uma autoprovocação de grandiosidade e megalomania. Não me recordo disto em seus primeiros filmes, mas desde Birdman, nota-se Inarritu como um árbitro de futebol tentando ser destaque numa partida, quando a boa atuação de um diretor vem como a do juiz, quando ele passa despercebido. Quem fala é o filme. Me recordo de um take em O Regresso, em que a respiração de DiCaprio cria vapor na câmera. Um aceno rápido para se fazer notar, em escalas grandiosas e produções notáveis.

E aí temos Tom Cruise, o salvador, estandarte da experiência cinematográfica, defensor da sétima arte na grande tela em meio ao streaming. Tom Cruise é costumeiramente intitulado como o “último Movie star”, e mesmo que outros nomes pertençam a essa lista, como Brad Pitt e DiCaprio, Tom Cruise é o que mais se assumiu como homem-franquia, o rosto que carrega filmes caros e longos. E eu não gosto que subestimem Cruise.

Muitos hoje o relegam a um ator limitado, de ação. Cruise possui carreira longeva e versátil. Possui atuações desafiadoras e primorosas em filmes ousados de diretores premiados, como Magnólia, De Olhos Bem Fechados, Colateral, Rain Man, Nascido em Quatro de Julho. E mesmo na ação, quem se dedica tanto a ela quanto Cruise? Com mais de 60 anos, dispensando dublês, viciado em adrenalina, participando na execução e idealização de setpieces elaboradas e complexas, arriscando a vida nelas. Top Gun: Maverick e vários Missão: Impossível sempre ofereceram o melhor do gênero.

É uma união que parece ideal. E a amizade e relação que ambos construíram soa previsível; no Oscar honorário que Cruise recebeu ano passado, foi Iñárritu quem o entregou.

E Digger, um filme tão metalinguístico, acaba falando sobre esses egos. O do diretor, do ator e também do personagem. Primeiramente, do diretor. Que filme grandioso é Digger, mesmo que não seja um épico de fantasia ou ação, e sim uma paródia política. É difícil imaginar justificativas para tamanha escala num longa de tal abordagem. Frequentemente filmado em planos abertos, não são muitos os cenários em que o longa se passa, numa produção que ultrapassou o orçamento planejado e chegou a cerca de $160 milhões. Com fotografia de Emmanuel Lubezki, vencedor de 3 Oscars, dois com Iñárritu, o filme se passa majoritariamente em salões grandiosos, decorados e, ainda assim, dessaturados e sem vida, destituídos de alma. Não são decadentes, mas vazios e opacos. Um retrato das figuras que dominam a tela em Digger, especialmente seu protagonista.

E aí falamos de Cruise. Apesar de não ser um filme típico do que o ator se aventurou recentemente, Digger é tão centrado e dependente de uma figura messiânica, excêntrica e megalomaníaca, que serve como uma variação maquiavélica do Cruiseverse. Apesar de grande elenco, é difícil notar com destaque qualquer nome que não o do ator, que engole, por tempo, enfoque e méritos, os colegas, muitos incrivelmente talentosos. Assim como os últimos Missão: Impossível, em que Ethan Hunt era esse totem de confiança e habilidades, monopolizando qualquer esperança contra as ameaças globais, Digger se torna um símbolo das intenções de Iñárritu, sintetizando a ganância, arrogância e maldade das elites para a destruição global.

E aí temos o resultado de Digger, essa colisão de três grandes egos para representar a visão do diretor para o presente e futuro do mundo, ao mesmo tempo em que uma estrela tão carismática e histórica quanto Cruise serve para atrair público, mas também sinalizar uma mea-culpa que Iñarritu atribui ao público à direção que o mundo toma. 

No meio de tanta pretensão e ideias, Digger, ao invés de cavar, se arrasta, apesar de momentos brilhantes, afinal, Iñárritu possui grande carreira, e Tom Cruise é um notável ator. Há um momento específico em que ele age como um verdadeiro déspota, com absoluta astúcia e carisma, e acaba convencendo todo um parlamento, num monólogo de quase 10 minutos, de que está certo e os outros são culpados por um desastre ambiental que causou, resultando em destruição e milhares de mortes. Filmada muitas vezes em contra-plongées, estabelece a autoridade e dominância de Cruise no espaço, frequentemente amplo e vazio.

É um momento único, que denota a qualidade dos envolvidos e as virtudes entremeadas no longa, em suas intenções apoteóticas, mas, infelizmente, quase que únicas e esvaziadas por meio da trama quimérica e amalucada, perdida na própria paródia e encantada pelos próprios efeitos, algo que sempre foi muito característico de Inarritu, mas que aqui se perde e não se dilui em um bom enredo.

A principal comparação seria com Dr. Fantástico, de Kubrick, também uma paródia rocambolesca de implicações sociais, mas inteligentemente contida em seus absurdos e escala, enquanto Inarritu parece forçar para atingir um nível de grandeza que não oferece reais parâmetros e necessidades fora encarecer sua produção, que, pelas previsões, dará grande prejuízo.

Apesar do show de Cruise, numa verdadeira tour de force, multifacetada, numa atuação dentro de uma atuação, o filme é tão centrado e admirado por seu protagonista que subvaloriza e desperdiça um excelente elenco de apoio, com nomes como Sandra Huller, John Goodman, Michael Stuhlbarg e Emma D`Arcy, todos meio perdidos nas caricaturas e pouco tempo de tela. Riz Ahmed e Jesse Plemons são os que melhor conseguem extrair algum significado e dimensão em suas participações.

Digger é mais uma prova de que mais nem sempre é melhor. Há muitos méritos no longa, que se perde progressivamente em suas dimensões excessivamente exageradas, exaurindo sua paródia e ironias e as tornando cansativas, por mais que instigantes e bem plausíveis. Uma pena também para Cruise, saindo de sua zona de conforto em um esforço notável. Mas parecer inteligente nem sempre é ser.

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