Godzilla Minus Zero (2026) - Crítica
Em seus mais de 70 anos de história, Godzilla já teve muitas versões e roupagens, mas nunca foi tão respeitado e temido quanto no já lendário Godzilla Minus One, de 2023, dirigido e escrito por Takashi Yamazaki, que também comandou seus efeitos especiais. Outrora relegado a filmes B e até à galhofa, apesar da adoração de nicho e de abordagens contemporâneas mais maduras, como o Shin de Hideaki Anno, Minus One bateu recordes de arrecadação e recebeu um improvável - mas merecido - Oscar de efeitos especiais. A principal questão era: poderia repetir tal feito e para onde ir?
A resposta está em Godzilla Minus Zero, que reúne novamente a equipe criativa do predecessor e utiliza todo o repertório cultural e simbólico do Rei dos Monstros para criar um filme maior, mais ambicioso e impressionante, ainda que também mais sentimentalmente condescendente.
Minus One refletiu um povo lidando com as consequências imediatas do pós-guerra, com todo seu medo, trauma e insegurança, com Godzilla simbolizando uma manifestação corpórea do terror coletivo, quase uma paranoia diante das incertezas do futuro. Minus Zero, por sua vez, encontra um cenário aparentemente otimista, de reconstrução e união, mas a criatura vem lembrar que algumas coisas não devem ser superadas e esquecidas, e sim compreendidas e com as quais precisamos aprender a conviver.
A principal virtude de Minus One foi equilibrar um melodrama honesto através de personagens delicados e profundos, oferecendo provavelmente o núcleo humano mais funcional e empático da franquia. O arco de Noriko, Koichi e outros sobreviventes, em busca de um caminho após a guerra, funcionou para nos fazer importar com a narrativa, não somente à espera das cenas de Kaiju, como acontece nos filmes da Legendary. E quando esses momentos surgem, são visualmente impactantes, mas também desesperadores ao ilustrar o horror e a brutalidade dos ataques de Godzilla, acentuados pelo assombroso trabalho de efeitos especiais e sonoros.
Minus Zero nos traz esses personagens já estabelecidos, agora mais confiantes e resolvidos, ainda que não completamente livres de conflitos. Isso produz dois efeitos no texto de Yamazaki: se, por um lado, traz conforto e familiaridade aos rostos aos quais nos afeiçoamos anteriormente, por outro, enfraquece o núcleo dramático que fora justamente a principal força motora do filme anterior. O melodrama, tão eficaz quando nos importávamos com figuras construídas a partir da miséria e do sofrimento, agora por vezes ultrapassa o tom. Especialmente no segundo ato, o excesso sentimental arrasta as interações que preenchem os espaços entre as setpieces dos Kaijus.
Prejudica também o fato de que, do grupo ao qual nos apegamos no longa anterior, a maioria perde sua função dramática, enquanto outros não retornam com a mesma força. O principal acréscimo é o cientista Kanji Murakami, um arquétipo do sci-fi clássico da era Showa de Godzilla, vivido com gravidade por Min Tanaka e cuja participação transita entre a utilidade prática e o envolvimento pessoal e temático.
Se antes as ações dos personagens eram involuntárias e necessárias para uma redenção, agora surgem sobretudo de uma iniciativa própria. Quem mais cresce nisso é a Noriko de Minami Hamabe, que, apesar de ainda frágil e bondosa, ganha camadas e assertividade. Sua trajetória também expande a mitologia da franquia de maneira interessante, com potencial para contribuir com a resolução temática e narrativa do filme.
Na escala da ação e da destruição, no entanto, é inacreditável o que Yamazaki e sua equipe fazem. Já fiquei embasbacado pelo orçamento de US$ 13 milhões de Minus One, mas saber que Minus Zero custou US$ 15 milhões soa até como deboche. Fica difícil acreditar que longas como Supergirl e Thor: Amor e Trovão custaram US$ 170 milhões e US$ 250 milhões, respectivamente. Não somente pela veracidade dos golpes, da movimentação e do design das criaturas, mas também pela arquitetura visual e construção atmosférica dos eventos. Enquanto os longas da Legendary abraçam o prazer infantil de ver monstros lutando com alto orçamento, preocupando-se sobretudo com o espetáculo gráfico, aqui há um fator emocional e anímico tão preponderante quanto, que reforça o impacto das criaturas.
Como análise nerd mesmo, de fã, é um deleite ver o peso e os detalhes de King Ghidorah e Godzilla, sua movimentação titânica e lenta, assim como o poder destrutivo, mas também atraente, de seus golpes. Seus ruídos, no IMAX, fazem a sala tremer e reverberar. Em nenhum outro longa da saga, no entanto, sentimos tanto o pavor e o verdadeiro horror de ver tais criaturas em confronto no ambiente urbano, com todas as suas consequências. Há cenas e perspectivas cruéis e enervantes em sua composição, especialmente quando o melodrama funciona para trazer mais peso e significado à luta, para além da adrenalina e da admiração.
Corrobora para isso a trilha sonora de Naoki Sato, que, além do já habitual e gutural tema de Godzilla, pega emprestados de Wagner os acordes iniciais, imperiosos e apocalípticos, da Cavalgada das Valquírias para construir a identidade sonora de Ghidorah. Suas aparições são antecipadas por uma assinatura nervosa e inquietante, que dá dimensão ao horror personificado pela majestosa e impiedosa criatura.
Se em Minus One o objetivo dos personagens era superar o medo, Minus Zero reforça que eles nunca terão paz de fato. Godzilla, assim como outros kaijus, está ali para ficar, simbolizando um horror que não deve ser esquecido justamente para não se repetir, mas com o qual é necessário aprender a conviver. Assim, o glorioso monstro deixa de ser somente um vilão fatal e irracional e se aproxima narrativamente de sua versão anti-herói, tão conhecida por nós. Semioticamente, serve como lembrete de tudo que o Japão sofreu, mas também provocou - vale lembrar que não foram santinhos naquele período. É uma identidade particular que precisa ser compreendida e evoluída.
Rico em subtexto e ousado em suas abordagens, sem medo de tocar na ferida da "colonização" e das intenções americanas em solo japonês desde a Segunda Guerra, Godzilla Minus Zero pode ter se tornado excessivo e condescendente no melodrama, fruto da confiança adquirida com o capítulo anterior. Mas Takashi Yamazaki, agora mais amadurecido e ambicioso, também oferece uma jornada envolvente, uma temática forte e consciente e uma arquitetura técnica avassaladora.
A questão agora é qual caminho seguir. Minus Zero se aproxima de uma abordagem mais tradicional do Godzilla, um ser que, se não exatamente o anti-herói da Legendary, pode ser utilizado a "favor". A necessidade de trazer mais monstros a cada narrativa também ameaça tornar a franquia cada vez mais megalomaníaca, sacrificando a intimidade e a pessoalidade que deram tanta riqueza a esses filmes e que já se dissipam um pouco aqui. É impossível, entretanto, não ficar instigado e entusiasmado para rever as habilidades e visões de Yamazaki, que já demonstrou interesse em retornar a este mundo.





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