Crítica - Angry Birds: O Filme (2016).

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Angry Birds: O Filme/ The Angry Birds Movie, Dirigido por Clay Kaytis e Fergal Reilly.
"A criatividade em Hollywood acabou" é a frase da vez e entoado como verdade absoluta. De fato, o excesso de histórias de origem, remakes, reboots e continuações pautam alguma veracidade neste argumento, mas ainda assim, a cabeça de produtores e roteiristas é engenhosa o suficiente para extrair milhões de produtos com adaptações quase inimagináveis, como é o caso de Angry Birds, advindo de um jogo tão simples quanto o possível.

Não que o filme possua uma complexidade desafiadora, mas considerando sua origem, é notável que tenha havido conteúdo para gerar uma fita com cerca de 100 minutos de duração, ainda que grande parte de seu tempo seja aproveitado com intermináveis piadas que se atropelam em um ritmo alucinante e frenético.

Piadas que dão o tom cômico qual preenche o longa, e é justamente quando foca neste lado menos sério que Angry Birds obtém algum êxito. Os pássaros do jogo estão aqui - o amarelo, o que explode, o papagaio bumerangue, e é claro, o vermelho clássico, também protagonista -, com uma inteligente utilização de suas funções no game para definir e desenvolver a personalidade dos mesmos na animação. O amarelo rapidinho é agitado, inquieto e hiperativo. O explosivo é emotivo e sua condição é caracterizada como um problema que o deixa inseguro e envergonhado. O vermelho (Red) é, de maneira condizente com sua cor, estressado e impulsivo nas atitudes.

É essa impulsividade que o leva a ser internado em uma clínica para controle da raiva, onde conhece seus companheiros que serão também parceiros para desmascarar os verdadeiros objetivos dos porcos que acabaram de chegar a ilha. Ou seja, seu caráter é o catalisador da trama.

O humor funciona justamente pelo carisma dos protagonistas. São caricatos e antropomórficos, diferindo completamente de outras retratações de pássaros na sétima arte, como o recente Rio. Sua sociedade é construída de maneira que se assemelhe com a nossa, com juízes e profissionais da saúde, e apesar de ser taxado de esquentado, as situações quais Red passa trazem identificação justamente por serem cabíveis na realidade. É impossível não sentir empatia pela ave, assim como seus amigos de terapia, todos com seus defeitos e fragilidades expostas no decorrer da trama. É a fragilidade que humaniza os animais, que nos faz torcer e embarcar em sua jornada, por mais absurda que seja.
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Gama de Personagens é Grande.
Jornada que engloba todo o recheio da película e se baseia inteiramente em piadas, como na forma de hilárias referências a O IluminadoX-Men: Dias de um Futuro Esquecido e até ao Daft Punk. Mesmo a dublagem se sai bem ao usar trocadilhos divertidos - estou de bacon a vida - e bordões nacionais que qualquer ser com acesso à internet reconhecerá prontamente. 

Mas com 97 minutos de duração, se apoiar apenas em comicidade não seria possível, e é ao arriscar algo mais truncado e maduro que o roteiro desliza na falta de foco, pois as abordagens sérias perdem força e saem de maneira até vaga e sem desenvolvimento, tudo em prol da comédia. 

Primeiro o texto tenta traçar um paralelo com a ignorância da maioria das aves perante os porcos. Se mostram maravilhados com as novidades trazidas pelos suínos, numa espécie de colonização onde os malandros se aproveitam da ingenuidade e inocência do povo local para ludibriar e tirar proveito destes. Há também uma rasa tentativa de discutir as consequências do bullying e isolamento no crescimento de crianças que sofreram tais abusos e a velha máxima de que todo patinho feio possui suas virtudes. Na teoria é lindo ver uma obra destinada ao público infantil oferecer mensagens ricas e importantes, mas na prática, falta aprofundamento. 

Essa exploração superficial de diversos temas desperdiçados na montagem apressada e sempre em busca da próxima risada deixam a sensação de vazio. O recente Zootopia foi um exemplo de como é possível balancear diversão com inteligência, então não há justificativa para as escolhas da equipe de Angry Birds. É uma pena que o desespero para gerar gargalhadas tenha soterrado qualquer ambição maior.



Nota: 6.

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