A Odisseia (2026) - Crítica

Eu não sou o maior fã de frases de efeito, mas é meio inevitável dar um sorriso irônico ao reconhecer que A Odisseia é, de fato, o "resultado de tudo que Nolan fez até aqui". E não digo isso pelo óbvio de que, bem, é natural que a experiência de um diretor culmine em trabalhos progressivamente mais elegantes e confiantes, ao menos enquanto em idade vital - para a maioria dos diretores -, antes de uma decadência criativa.

Falo isso pois A Odisseia, menos por estética e técnica, e mais por ótica e direcionamento, é um filme que parece simbolizar as crenças e o amadurecimento do cineasta. Confesso que eu o considerei, por um bom tempo, como um artista já em ocaso, numa série de decepções narrativas após um ápice em A Origem. De Batman 3 a Tenet, parecia um diretor engolido pela ambição e pelas expectativas, forçando-se a soar sempre maior. Oppenheimer foi uma grata surpresa por simbolizar um retorno de Nolan ao terreno fértil, mas também uma mudança de direção em relação à escala e à composição. Claro que ele ainda mantém um tom épico mesmo numa história bastante teórica, real e científica, mas, como nunca, sendo suficiente por diálogos e introspecção, algo quase inimaginável para alguém tão associado ao expositivismo.

Não são vícios descartados ou dos quais ele tenha se desvencilhado hoje em dia, mas melhor trabalhados e equilibrados dentro de seus filmes. Numa argamassa histórica como A Odisseia, com tanto a se saber do passado, há, sim, um bom número de explicações e resumos saindo da boca de personagens, mas, assim como em Oppenheimer, há uma economia que permite a meditação de seus personagens, em texto, som e imagem.

Assim, por mais óbvia que seja a comparação com o Tróia de Wolfgang Petersen por sua temática e cronologia, A Odisseia surge muito mais como uma sequência, ou pelo menos um companheiro espiritual, de Oppenheimer, uma espécie de batizado de Nolan, finalmente reconhecido como arte e não - injustamente - entretenimento, com seus Oscarzinhos de legitimização.

Não que ele precise, né? O papel de um crítico é analisar um filme pelo que ele é, e não pelo que se deseja dele. Eu, na contramão, sou um pouco condescendente com certos tipos de longas. Com os riscos e a inflação atuais, alguns gêneros se tornaram raros em Hollywood. Filmes de sandália e espada, seja na época medieval ou na Antiguidade Clássica, poucos nomes teriam culhão e cheque em branco de estúdios para revisitar tais períodos. Ridley Scott já foi um deles - não sei se ainda seria, após acumular tantos fracassos. Nolan, outro. E talvez o maior. E uma parte de mim já é profundamente agradecida por poder assistir a tal filme, em tal escala e orçamento, mesmo com alguns pormenores e, é claro, desconfiança.

Alguns fariam melhor, provavelmente, mas jamais igual. Será que alguém tem o olho de Nolan para grandiosidade e set pieces tão elaboradas e realistas hoje em dia? Talvez Villeneuve. O que me agrada bastante é como Nolan conseguiu se reformar e se tornar mais imprevisível do que nunca, mesmo sem trair seus próprios moldes.

A megalomania, seu cinema superlativo e o hiper-realismo já foram grandes entraves que tive com o cinema de Nolan. Mesmo para conceitos que clamavam por algo mais lúdico e fantástico - especialmente um A Origem. Apesar de confiar na abordagem épica do diretor, o que casaria com o mote de A Odisseia, desconfiava um pouco dessa assinatura realista, por vezes bastante modorrenta e desinteressante; afinal, o poema de Homero fala de deuses e criaturas mitológicas. O material de divulgação não foi muito animador, com esse filtro acinzentado e um monocromatismo visual em batalhas e armaduras. Elementos que acabam sendo, felizmente, quase que (e leia bem, quase) usurpados enquanto se assiste ao longa.

Mesmo que seja um deleite visual, com uma escala completamente impressionante em sua arquitetura e engenharia, Nolan faz, como supracitado, da história de Odisseu um espelho da de Oppenheimer, muito diferente de um tom heroico e nobre que poderia ser o esperado. A jornada de volta e suas provações se tornam um purgatório para o rei de Ítaca e seus soldados, sobrecarregados de culpa e remorso. Não que Nolan dê uma de Malick em introspecção e subjetividade, mas o motor da jornada acaba sendo, entremeado por flashbacks explicativos, essa autodescoberta e busca por penitência.

Primeiro longa filmado inteiramente em IMAX, A Odisseia é lindo e tem momentos de êxtase visual. E é curioso que Nolan use de tal tecnologia e magnitude para uma jornada tão pessoal, apesar de momentos de tensão e adrenalina, muito amplificados pela trilha de Ludwig Göransson, uma espécie de Messi dos compositores modernos, léguas acima dos demais. A construção final acaba sendo até anticlimática como ação, apesar de recompensar em outras esferas. Nunca se imaginaria algo assim de Nolan até Tenet, que depositava tanto de suas fichas em catarses no desfecho. 

É louvável como Matt Damon consegue esvaziar sua figura hollywoodiana para conferir hombridade, pesar e gentileza à figura de Odisseu. Eu tive algumas ressalvas com o elenco, com vários rostos pouco encaixados para o período e os personagens - e não, jamais falo aqui de opções étnicas, mas sim de Tom Holland, Jon Bernthal e Benny Safdie. Enquanto os dois últimos, de fato, são deslocados e pouco convincentes, ao menos aparecendo pouco, Holland consegue força em seu papel, até ajudado pelo personagem representar sua própria persona insegura, imatura e frágil.

Mas, voltando a Nolan, ele nunca foi tão camaleônico quanto aqui. Esses dias, durante a campanha de divulgação para o filme, o diretor demonstrou interesse em dirigir um terror, algo meio insólito considerando sua filmografia. Mas não mais. Se alguns obstáculos recebem, naturalmente, mais destaque que outros, os segmentos de Polifemo e Circe são mais do que sugestões, e sim verdadeiras execuções do cinema de gênero horror, entre um perturbador vale da estranheza com um surrealismo desconfortável, que também estabelecem o estado mental e de espírito quebrado dos soldados, mas também caracterizam suas relações interpessoais e personalidades.

Com tantas menções e aparições sobrenaturais, Nolan dá o máximo para representar com realismo e credibilidade cada elemento fantástico. Não deixa de ser um pouco frustrante o pouco tempo de tela e criatividade para personagens como a Atena de Zendaya, com o credo mitológico e a teogonia mais lembrados como métodos de controle e dogmas sociais, em processo de destruição, esquecimento e distorção numa sociedade que, outrora exemplo de civilidade e desenvolvimento, agora perece. É o aceno antropológico moderno de Nolan ao império americano e sua implosão como nação exemplar, um pouco trôpego e apressado, assim como um rápido monólogo feminista de Anne Hathaway, certeiro, mas bastante despejado e aleatório dentro da trama. Alguns vícios persistem, como disse.

No fim, A Odisseia poderia ter muitas formas. Alguns reclamam de certos atores, outros gostariam de algo mais tradicional, como o Tróia de 2004 (um filme de que gosto), mas Nolan o quis assim, e é o que temos, e é bom que seja assim. Assim como seu protagonista, Nolan está numa jornada em que, ao fim, não será o mesmo do começo. Melhor? Pior? Não sei, mas certamente diferente. 

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