Só Por Uma Noite (2026) - Crítica
É inevitável começar qualquer comentário sobre Só Por Uma Noite ou, no original, One Night Only, sem abordar a entrevista em que o diretor do filme, Will Gluck, discutiu sobre a censura do longa e a falta de cenas de sexo. Mencionando ter dados para confirmar tal predileção do público por menos nudez e sexo, ele disse que a resposta da plateia em sessões-teste foi negativa e desconfortável em tais momentos, que melhoraram após sua remoção. Então, sim, elas foram filmadas.
Esse conservadorismo já é obviamente observável na sociedade, não somente no audiovisual, e acho que todo mundo que consome alguma cultura e internet deve ter chegado a algum debate disto, seja por pesquisas ou somente opiniões de redes sociais. Acho plausível e mais coerente quando elas focam na necessidade de tais cenas estarem em algumas produções, por mais que não veja problema nem me sinta ofendido por elas. Mas, em um filme como Só Por Uma Noite, cuja plot já é a base do próprio título, em que, nos Estados Unidos, o sexo fora do casamento foi banido, menos em uma noite no ano - um The Purge do sexo -, a ausência de sexo e nudez é inverossímil e casta.
A verdade é que Gluck, um diretor especialista nesses filmes leves e joviais como A Mentira e Peter Rabbit, mas também em comédias românticas apimentadas como Amizade Colorido e o recente Todos Menos Você, a partir do roteiro de Travis Braun, parece pouco interessado em qualquer discussão moral ou ética dessa distopia fascista que seria um país que reprime o sexo fora do casamento.
Até aí, ok. Podemos interpretar como uma oportunidade perdida, mas é um gatilho que mira mais em sua natureza absurda para buscar humor e a inevitável união de um casal desafortunado e gerar risos e momentos calorosos.
O que confunde e até agride é uma sugestão moralista que condena o sexo recreativo e glorifica a “conexão” emocional como primordial e única alternativa para uma sociedade justa e ética. É uma palmatória mais evidente e explícita que As Crônicas de Nárnia em suas virtudes cristãs.
Se conseguirmos passar por todos esses debates e franzir de sobrancelhas para a simplicidade com que o tema é abordado e aceito por seus personagens, fora leves e rápidos vislumbres de protesto que parecem ir contra o progresso semiótico do roteiro e seus protagonistas, podemos dizer que Só Por Uma Noite é uma sequência espiritual digna de Todos Menos Você. Basicamente, uma versão mais pedestre
Sem desmerecer a beleza dos protagonistas, Callum Turner, o Duo Lipo, e Mônica Bárbaro. Mas parece mais provável se deparar com eles na rua que os rostos e corpos que parecem fabricados por IA de Glenn Powell e Sydney Sweeney.
Apesar de o filme já nos mostrar onde terminará de imediato, o prazer deste gênero sempre residiu nas situações que levam a seu fatídico e romântico final. O casal é desafortunado, vítima do cinismo contemporâneo que esnoba o romantismo em prol do prazer carnal imediato - alô, Aslan.
Mas, muito por sua simpatia, são circunstâncias leves, bobas e inocentes que conseguem extrair bons momentos que apostam mais no absurdo da lei do que debatê-la com profundidade. As desavenças que se interligam em amizade e interesse, uma química bem honesta e essa aparência atraente, mas mundana, que transmite empatia e simplicidade.
Talvez algum dia algum realizador mais ousado e capacitado veja esse filme e use seu mote para algo superior, desafiador e provocativo. Ou talvez ele seja só um filme que reflete gerações e um sistema puritano e hipócrita que normaliza e pede por um fascismo cada vez mais próximo e, precisando do dinheiro destes, fez o que achou necessário para agradá-los. Cada um que veja qual lado pesa mais para seu entretenimento e ideais.
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