Coyote vs Acme (2026) - Crítica
Se tem um filme que eu torço para fazer dinheiro neste 2026, é Coyote vs Acme. E por vários motivos. Muitos até antes de assistir. Para quem não acompanhou, Coyote vs Acme tinha estreia prevista para 2023, quando foi adiado e substituído pelo lançamento de Barbie e, após algum mistério, engavetado definitivamente pelo estúdio por benefícios fiscais de cerca de US$ 30 milhões.
O estúdio e David Zaslav preferiram aceitar o prejuízo de cerca de US$ 72 milhões do orçamento do filme do que arcar com sua promoção e lançamento, sendo ele um filme já pronto. Isso para não se falar em questões éticas e de respeito a quem criou o longa.
Assim, ele entrou na mesma gaveta de Batgirl, com Brendan Fraser, e da sequência da animação de Scooby-Doo. Um argumento de defesa, e que muita gente especulou na internet, é que, para o estúdio não ter nenhuma confiança no lucro, o filme seria uma bomba. Acho que, para Batgirl e Scoob 2, não teria muito debate sobre isso, e a repercussão na web foi muito maior para Coyote vs Acme, até inesperada, o que levou ao seu resgate pela Ketchup Entertainment, que já havia também comprado os direitos para lançar a animação dos Looney Tunes: O Dia em que a Terra Explodiu.
Eu teria muito apreço pelo sucesso desse filme, então, para honrar a ação e a coragem da Ketchup ao comprá-lo, de quem o realizou, e também para ver Zaslav se retorcer em seu escritório. O presidente da Warner é uma das figuras mais antipáticas e maquiavélicas da indústria, além de toda essa polêmica da venda da Warner e de suas escolhas criativas. Em um ano de bilheterias recordes e muito sucesso para o cinema, é a Warner o grande estúdio que amarga os maiores prejuízos, com menos de US$ 700 milhões de bilheteria total e grandes flops, como Supergirl e A Noiva. Seria divertido ver um filme rejeitado e descartado por eles se sair melhor, por mais que eu torça pelo sucesso financeiro e pela independência do estúdio.
E, bem, isso tudo era antes de sequer assistir ao filme, e agora, após tê-lo feito, minha torcida é ainda mais intensa e honesta, pois que filme bonito, carinhoso e leve é Coyote vs Acme.
Dirigido por Dave Green, de uma filmografia bem pouco impressionante, cujo último filme foi o segundo longa das Tartarugas Ninja em live-action, lá de 2016, Coyote vs Acme é um híbrido entre animação e live-action, como foram os Space Jam e Looney Tunes: De Volta à Ação, baseado em um divertido e curioso artigo da The New Yorker, de 1990, sobre o Coiote processando a Acme, empresa que, nesse mundo, é uma mistura de Apple, BYD e tudo o que você possa imaginar, responsável por manufaturar todos os objetos e artefatos que o Coiote usou por décadas para, sem sucesso, tentar capturar o Papa-Léguas, normalmente para acabar se ferindo no final. Para curiosidade, no artigo da The New Yorker, ele cita 85 vezes em que isso aconteceu.
Ou seja, é um filme de tribunal, mas que sabe usar com muita inteligência, criatividade e domínio esse mundo cartunesco e absurdista dos Looney Tunes. E é bacana e bonito o Coiote ganhar esse destaque, já que, nesse mundo, ele sempre foi coadjuvante de outros personagens, como Pernalonga, Patolino e Frajola. Talvez um pouco por seus curtas serem silenciosos, mas que, até por isso, eram exemplos extremos e positivos do humor físico e do slapstick dos Looney Tunes, algo que, no cinema live-action, foi popularizado por Charles Chaplin e Buster Keaton.
Coyote vs Acme usa esse silêncio como virtude e para reforçar o carisma do Coiote. Sua figura mais penosa e maníaca, como um coitado e solitário carnívoro com um único objetivo na vida. O filme fala muito sobre a figura de Sísifo, naturalmente de modo a aludir ao comportamento e à vida do Coiote. "É preciso imaginar Sísifo feliz", célebre frase de Camus sobre a interminável tarefa do homem que empurra uma rocha montanha acima, somente para inevitavelmente vê-la cair ao final do dia e ter de recomeçar tudo amanhã. Assim como o Coiote e sua obsessão pelo Papa-Léguas, como se fossem os únicos habitantes de seu deserto, quase como um sonho abstrato de codependência.
Justamente por essa persona, a parceria com o advogado Kevin, vivido por Will Forte, encontra um bom reflexo entre ambos. São duas abordagens diferentes sobre o fracasso: o medo paralisante do homem contra a insistência irresoluta do animal, de que algum dia as coisas serão diferentes. Em um estilo de filme que normalmente tropeça e encontra seu ponto fraco nos arcos humanos, Coyote vs Acme consegue extrair boas jornadas e química de pelo menos dois deles: o supracitado Forte e John Cena, completamente disposto em uma atuação caricata, digna dos Looney Tunes, como o advogado rival, de confiança oposta à de Kevin.
E é uma grande ironia do destino como o filme, que iria funcionar de qualquer jeito, ganha ares metalinguísticos ainda mais aguçados e contemporâneos pela situação em que foi lançado. Numa trama típica de Davi contra Golias, a resistência do homem comum contra uma corporação gigantesca também é a resistência da arte e de um filme desrespeitado dentro de um sistema, para não falar na corrupção e na influência da Acme como um espelho de todo esse processo de compra da Warner pela Paramount, influenciada até mesmo por Trump e suas políticas infames, além da proximidade com David Ellison.
É uma trama simples, expandida e enriquecida pelo cenário real. Mas isso é projeção. Coyote vs Acme merece uma aclamação menos contextual para ganhar terreno e, esperamos, um bom retorno. Uma mistura equilibrada entre um humor contagiante e absurdo de seu material de origem, com uma boa dose de emoção carregada em toda a história quase centenária dos Looney Tunes e suas fundações na cultura pop.
Por mais que haja algo a se dizer no tribunal, é nas gags, numa bonita animação em 3D que simula o design 2D tradicional do desenho para integrá-lo ao mundo, que o filme consegue soar nostálgico com referências certeiras e não apelativas, uma dose de emoção bem inesperada, num dos momentos mais singelos e tenros do cinema moderno, sem deixar de ser comunicativo com um público mais novo e menos familiarizado com os desenhos de Chuck Jones e companhia.
Coyote vs Acme merece ser assistido tanto quanto o Coiote merecia ganhar o processo. É preciso imaginá-lo feliz.
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