O Fim da Rua (2026) - Crítica

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Acho que, se há um mal que Jurassic Park, o original, causou, é essa percepção de que seria fácil fazer filmes de dinossauros e, ainda assim, nos deixar malucos por eles. Mais de 30 anos depois, a própria franquia já deu origem a outros seis filmes, além de derivados sobre dinossauros, e não sei se podemos dizer que tivemos outro filme notável - no máximo, bons filmes, como Jurassic Park 2 e 3 e Jurassic World1. Mas todos parecem sofrer de uma falta de inventividade e confiança severas para assumir o próprio tom e definir aonde querem chegar. Os últimos me pareceram mais filmes de super-heróis com dinossauros do que qualquer coisa que Spielberg tenha feito, isso para não comentar certas obras, como Primitive War e 65, que acabam nos oferecendo migalhas.

Na impossibilidade de fazer algo novo com dinossauros, que tal reciclar conceitos em uma trama que, sim, pode ser considerada original em sua mistura? Parece ser isso que David Robert Mitchell, diretor e roteirista aqui, buscou fazer, em uma produção com um dos nomes mais associados ao cinema da nostalgia: J. J. Abrams.

Mitchell, oriundo de um cinema mais sensorial e misterioso, em obras de que eu gosto, como Under the Silver Lake e It Follows, parece ter gravado na memória a icônica destruição causada por um T-Rex na San Diego pré-digital e noturna de Jurassic Park 2 e desenvolvido, da maneira mais louca e divertida possível, este O Fim da Rua, no original, The End of Oak Street.

Acompanhando uma família inicialmente normal e ideal, tradicional americana, em uma festa familiar de subúrbio, rapidamente somos deslocados, junto ao casal principal, vivido com carisma por Anne Hathaway e Ewan McGregor, para um cenário em que ficam explícitos os atritos do casal, e até mesmo uma insinuação de divórcio por parte dela, além de uma postura bastante distante e fugidia dele. Algo que, naturalmente, os filhos, um casal de pré-adolescentes, percebem. O que mais poderia unir o casal do que ver seu bairro, misteriosa e subitamente, transportado para a era mesozoica e ter de se unir para enfrentar dinossauros tão perdidos quanto eles?

Que trama seria mais spielberguiana do que essa? Crianças em uma aparente vida perfeita, fragmentada pela separação dos pais, com uma aparente culpabilidade paterna? Abrams construiu sua carreira assim e traz essa assinatura aqui, com uma mistura curiosa e bem encaixada entre Jurassic Park, Goosebumps e o Spielberg de sua preferência, desde que seja E.T.

Mas este ainda é um filme do diretor de It Follows e com algo a dizer além de simplesmente seguir tendências passadas. Assim como a normalidade da família, o filme parece desenhar uma ideia e uma narrativa mais convencionais, ainda que lúdicas, mas as transgride o suficiente para tornar a experiência mais imprevisível do que o sugerido no começo.

Apesar de termos a noção de que sabemos, desde o início, onde o filme vai parar, o que se apresenta como um drama familiar com pouca urgência e pouco senso real de perigo vai, aos poucos, dando lugar a bastante sangue, vísceras e predação brutal por parte dos dinos. Ainda sinto aquele feeling meio teen que eu aproximo de Goosebumps, que brincava com conceitos de terror adolescente, mas com sangue suficiente para você se perguntar se, de fato, a família está garantida.

Os encontros com os dinossauros, por vezes, aproximam-se até mesmo de um terror stealth, um suspense de monstros que era a atmosfera do Jurassic Park original, de Michael Crichton, ao mesmo tempo em que o filme consegue desenvolver e aprofundar, em arcos conjuntos e individuais, as relações da família e suas crises. É um melodrama açucarado, mas bem escalado e bem atuado por parte das crianças e do casal principal, interpretado por dois atores tão eficientes e carismáticos quanto Ewan McGregor e Anne Hathaway, vivendo o ano de suas vidas, mas completamente convincentes como pessoas comuns e pais de família.

O filme, aliás, foi vendido como uma ficção científica, mas o que o aproxima de um Spielberg clássico é justamente o fato de abraçar, desde o início e sem nenhum constrangimento, a fantasia. Não há intenção de explorar o conceito ou a explicação das luzes que causam as viagens no tempo, mas sim o desespero de apenas entrar nelas e escapar do perigo. Ele se espelha muito mais em Star Wars, Willow e Excalibur do que em Star Trek. Inclusive na questão dos dinossauros.

Não há justificativa científica nem clonagem para o seu retorno. São os dinossauros originais transportados no tempo, ou então um bairro de 1982 invadido por eles. Não é um furo de roteiro, mas uma abordagem cuja lógica não tem importância e passa despercebida diante das intenções do filme. A magia existe, os dinossauros existem e o amor familiar pode resolver tudo. É um filme simples nesse aspecto, mas orquestrado de maneira bonita e inocente, como nos melhores Spielbergs e Shyamalans. A própria intenção de situar o filme nos anos 1980, período em que tantas dessas obras foram estabelecidas, já é um aceno a essa ideia. Há referências rápidas a alienígenas e a Jurassic Park, como não poderia deixar de ser.

O que afasta o filme de uma experiência burocrática e esquecível, de um pastiche de nostalgia barata ou de um conceito empolgante que se esvai rapidamente, é o fato de abraçar o absurdismo de sua situação em todos os elementos. As atuações e o próprio roteiro reconhecem essa mistura bagunçada e abraçam com convicção os seus pormenores. Ainda assim, o filme não deixa de surpreender, como falei, em momentos bastante grotescos e gore, com os dinossauros caçando ou mesmo com as pessoas revidando.

Com um bom CGI para os dinos, também em uma miscelânea entre os visuais mais reptilianos fixados por Jurassic Park e as atualizações contemporâneas, com penas e novas formas, o filme parece abraçar o que há de mais atraente e temível em ambos. Assim, temos dinos com penas e um Espinossauro à moda antiga, sem as nerfadas que ele sofreu na visão contemporânea. Ao mesmo tempo, são apenas dinossauros em seu comportamento habitual, ou esperado, sem a megalomania dos mutantes em que Jurassic World se transformou. É um refresco.

O Fim da Rua, então, é uma agradável surpresa neste fim de verão americano. Com um orçamento médio, um elenco encabeçado por duas estrelas com os pés no chão e muita sabedoria para mesclar nostalgia com abordagens mais autorais, especialmente em uma direção fluida e com momentos de brilho de David Robert Mitchell, o filme tem potencial para agradar a todos os públicos: não é sério demais, nem bobo demais, nem meloso demais e tem dinossauros muito dignos e temíveis, sendo apenas eles mesmos.

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