Coração Selvagem (2026) - Crítica

É engraçado como Hollywood gosta de se espelhar, produzir e lançar filmes similares em períodos próximos. Isso, normalmente, vem de adaptações de diferentes estúdios sobre um mesmo material de origem. Pense em FormiguinhaZ e Vida de Inseto em 1998, O Ilusionista e O Grande Truque, em 2006, e os mutuamente ruins Espelho, Espelho Meu e Branca de Neve e o Caçador, de 2012. 2026 nos trouxe os menos idênticos, sem quase nenhuma expectativa, mas ainda dividindo certa irmandade: Ponto Sem Retorno, de Ridley Scott, e Coração Selvagem, de David Ayer, lançados com menos de um mês de diferença.

Apesar de um ser baseado num livro e outro numa história original, as comparações serão inevitáveis mesmo no pôster, protagonizados por um homem solitário e taciturno com um cachorro num cenário desfavorável. Mas enquanto um fala do fim do mundo, outro é somente sobre traumas. Porém, ambos compartilham a necessidade de fazer conexões e sobreviver. Se alguém me falasse, entretanto, que o filme de Ayer seria bem superior ao de Scott, eu ficaria bastante surpreso. Não que a filmografia recente do lendário diretor seja sobressalente, mas a de Ayer muito menos, e com um ápice bem inferior em cotejo. Mas é o que acontece.

Já iam mais de 10 anos desde o último bom filme de Ayer, roteirista proeminente com o privilégio de migrar para a direção que ameaçou uma carreira interessante ao emendar Marcados Para Morrer com Corações de Ferro, até ser brindado com o prêmio maior da indústria a diretores indie: um contrato gordo com uma IP. Ayer, entretanto, entrou na barca furada que era (era?) a DC, e fez talvez seu pior filme do período em Esquadrão Suicida, nunca mais se recuperando com longas mal avaliados em sequência.

Os fascínios do diretor, nas marés altas e baixas, sempre flutuaram num cinema frontal que lida com a camaradagem em meio à violência, e apesar de Coração Selvagem mudar o cenário, escopo e gênero, mantém esse espírito, encarnado aqui por Brad Pitt e seu cão, Odin (ainda bem que não é Thor!), dois militares veteranos com Transtorno de Estresse Pós-Traumático vivendo a aposentadoria em reclusão e buscando acalmar os nervos em meio à natureza, até obviamente tudo dar errado.

O filme é estabelecido no Alasca, apesar de ter sido filmado nas belas locações Tolkienianas da Nova Zelândia, com suas montanhas de gelo, fiordes, lagos e belas florestas. Ao contrário de uma idealizada novela de Jack London, no entanto, a natureza é impiedosa, como descobriu tarde demais um sonhador Chris McCandless, de modo que o filme transita num caminho entre a contemplação e solidão de Na Natureza Selvagem com a violência imprevisível de O Regresso e Mais Forte que a Vingança (ou Jeremiah Johnson).

É curioso ver Ayer navegar tais mares após uma carreira entre gangues, mafiosos e guerras, mas talvez ele tenha percebido a necessidade de um novo hit global, mais familiar, menos nichado e com uma estrela do porte de Pitt. Ele não abdica, como supracitei, de todos seus esquemas e vícios, e se sai surpreendentemente bem ao conseguir equilibrar o ambiente introspectivo e solitário de Pitt e Odin em meio ao extraordinário, porém imponente e ameaçador, cenário neozelandês, com a tensão e ação de um homem enfrentando o selvagem para sobreviver.

Pitt, que sempre se sai melhor em papéis extrovertidos e irreverentes, e menos nos silenciosos, se mostra mais maduro para lidar com um personagem assim, dividindo tela com um de seus colegas mais carismáticos da carreira em Odin, um cão de olhar atento e incrivelmente empático, e juro que não estou projetando. Ayer dá uma aula em Scott em como desenvolver a relação de seus personagens, porém, e odeio fazer qualquer competição entre os caninos, mas a Odin é dado mais tempo de tela e muitos planos frontais e zoom para destacar a personalidade e maneirismos do cão. Pitt e Odin, que se aproximaram na pré-produção, exalam uma relação carinhosa, profunda e honesta que carrega a carga dramática do filme, tornando os momentos de perigo e incerteza emotivos e tensos, sem soarem tão apelativos.

Ayer peca e se sabota, entretanto, em não confiar no magnetismo e intensidade da relação de ambos para conduzir toda a trama e seu arco emocional e pessoal, aderindo a excessivos flashbacks da guerra para reforçar as razões do trauma e sua natureza, quase como uma desculpa para somente filmar a guerra.

Mas o saldo final de Coração Selvagem é um expoente tanto do estrelismo persistente de Pitt e, especialmente, um frescor para a carreira de Ayer, que parecia fadada e ladeira abaixo. O diretor consegue manter sua essência e ainda assim expandir o discurso, dando personalidade e pulso num filme que poderia facilmente soar derivativo, como nosso prezado Ridley Scott bem comprovou.

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