Resident Evil (2026) - Crítica

Poucas franquias podem dizer que foram tão maltratadas no cinema quanto Resident Evil. E ainda assim, nenhuma, mesmo com críticas majoritariamente negativas, pode gabar-se de ter dado à luz a 7 longas - 8 com esse -, feito mais de 1 bilhão de dólares, ganhado tantas chances na sétima arte e ainda gerar expectativas e deixar o povo ansioso por seu retorno. No mínimo, expandindo o conhecimento público da marca e a registrando na cultura pop. Mas que foram filmes progressivamente detestáveis, foram. Para o fã e purista da franquia, deve ter sido agonizante acompanhar tantos lançamentos desesperançados. E o pior de todos ainda foi o que mais tentou se aproximar dos jogos, sem a personagem Alice dos malfadados longas iniciados por Paul W.S. Anderson.

Era de esperar um pouco mais de gratidão do fandom ao terem nova chance de ver a saga nos cinemas, e com um autor do gênero em alto nível e no ápice da forma, Zach Cregger. Me espanta ver como a repercussão do filme foi inundada por pessimismo e amargor pelas entrevistas "iconoclastas" do diretor. Deve ser o trauma, imagino.

É curiosa a experiência de assistir ao Biohazard de Cregger. O filme é muitas coisas, e muito do que não se espera dele. Não que isso seja ruim. Dentro do terror, o diretor não está livre do horror social, o famigerado pós-horror, termo que ganhou uma aura meio pejorativa ultimamente. Enfim, estes horrores psicológicos ao estilo A24 que ganharam forma e as telas na última década e meia, suplantando o terror mais direto e frontal. Tem de haver significado e traumas. Cregger, entretanto, diferente de Ari Aster e até Jordan Peele, é o que melhor parece conseguir coincidir esse elitismo intelectual para validar suas narrativas com um prazer mais físico e visual.

Há muitas leituras que você pode fazer de Noites Brutais e A Hora do Mal. Algumas óbvias, outras mais sutis. Mas, se não quiser, também, e só imergir numa boa história, são filmes - especialmente o primeiro - bem eficientes e atmosféricos. Resident Evil, igualmente, é um filme multifacetado, e ainda assim, ele, apesar de carregar essa essência que Cregger vem construindo, consegue expandir o repertório do realizador, diversificando ainda mais seu potencial.

Assistir a Resident Evil lembra muito o Depois das Horas, de Scorsese. Uma associação engraçada, já que, neste mesmo ano, há menos de um mês, tivemos a romcom Só Por uma Noite, que também se inspirou no clássico do consagrado diretor. E são dois filmes completamente diferentes, e essa é a magia do cinema. E é importante deixar claro esse termo e seu significado, por mais óbvio que seja: cinema. Não jogo, por mais que Cregger tente trazer tanto referências mais manjadas para agradar puristas, quanto em simular um gameplay dentro da própria diegese. Mas quem agrada o fã xiita, né?

Essa aproximação com Depois das Horas é um elogio, aliás. Pois o filme é, literalmente, uma noite de caos progressivo. Uma comédia sádica, ou um horror cotidiano. Muito se falou que esse filme é um survival horror genérico que ganhou o nome Resident Evil, com pequenas alterações para se adequar, para manter a franquia em voga e ganhar uma atenção e dinheiro fácil a partir disso. A trivia do IMDb até confirma isso, mas sem fontes, então fica a dúvida, até porque não achei confirmação da informação em minha busca. E novamente, eu compreendo a insatisfação inicial de um fã mais fervoroso dos games; mas primeiro, agradeça por ter um bom filme passado nesse universo, isso já é quase uma exclusividade nessas traduções e ainda abre espaço para mais; e outra, o filme lembra, sim, um gameplay possível da franquia. Só não fetichiza demais sua seriedade.

Pois outra lembrança imediata do tom que Cregger adota aqui é da franquia Evil Dead, de Sam Raimi, especialmente o segundo filme, com sua comédia de horror bem gore. Cregger, que parece apaixonado por cinema e pelo gênero, é inteligente e nada autocondescendente em condensar sua ação em cerca de 95 minutos. É um caos rítmico e alucinante que o filme coloca seu protagonista, Bryan, vivido por um confuso, estabanado e querido Austin Abrams.

Longe de um Leon, seu Bryan pode ser tanto aquele NPC em sua vida paralela após um diálogo rápido com o protagonista heroico, sereno e confiante, quanto a própria representação do gamer se jogado no mundo de Resident Evil. Tal qual no filme de Scorsese, o protagonista começa a história achando que vai se dar bem, até ser jogado numa inesperada comédia de erros que vão adotando tons absurdos e sobrenaturais, sem qualquer sugestão ou preparação. Ao contrário de Alice, que se revela ela mesma uma arma, algo além da humanidade, Bryan não somente é um cara comum, como é um cara meio obtuso e bastante azarado.

Cregger integra essa personalidade com elementos jocosos dos jogos, com seus cadeados indestrutíveis e intermináveis, e ações burras e equivocadas que cobram o preço depois; porém, sem o privilégio e segurança de um save. O risco e a gravidade são reais, bem pontuados numa ambientação que chega a lembrar até Silent Hill em seu isolamento e desolação. Não há notícias na mídia e nenhum conhecimento prévio do que se passa em Raccoon City, com o personagem jogado no tornado de eventos de forma abrupta e inescapável.

E tal qual Raimi em Evil Dead 2 - e grande parte de sua carreira -, Cregger não subestima o poder do visual, do artesanato e de muito sangue e vísceras para transmitir sua mensagem e o horror da situação -- com menos splatter para manter alguma gravidade dentro da noite escura e nevada. As criaturas aqui, que pouco podem ser chamadas de zumbis, e mais monstros, como diz nosso protagonista, não são somente temíveis, mas são repulsivas, asquerosas e repelentes. Contorcidas, nojentas e impelidas pelo mal.

Cregger brinca na direção e nos conceitos com desígnios dos jogos e elementos de gameplay. Câmeras em primeira e segunda pessoa; ângulos que escondem o susto; o upgrade do inventário; a falta de balas. E é engraçado, no entanto, como ele revela que seu game favorito da série é Resident Evil 4, justamente aquele que reestrutura a franquia como ação, enquanto o cineasta busca mais pelo horror e pelo humor. Mas nunca sem parecer saber o que está fazendo, por mais que se pese a mão de modo que a falta de seriedade prejudica o tom e a gravidade do que se vê em tela. Há nervosismo, sustos e repulsa, mas menos tensão e aflição devido a isso.

E além de toda a diversão, ainda há, aos que exigem tais elementos para apreciação, o subtexto, as camadas. A jornada de um Peter Pan que se espanta perante a notícia de que será pai; que prefere um turno extra, um trabalho a mais, a ter de encarar a namorada para tal discussão. Raccoon City, neste contexto mais mental, parece mesmo outro mundo, num acesso através de uma montanha nevada e engolfada por escura, desabitada e longe da urbanização. É a montanha mágica de Thomas Mann, abrindo caminho para uma nova dimensão. É bonito como a primeira delicadeza de Bryan venha após ver um adesivo de uma família tradicional num carro - pais, criança, bebês e um cachorro, não em vão, todas fases e seres que ele teve de enfrentar e matar para seguir em frente e superar esse bloqueio ou trauma.

Mas, sendo honesto, sim, eu conseguiria imaginar facilmente este filme acontecendo com outro nome, sem associações a uma IP, e quem sabe isso não fosse até melhor? Com algumas mudanças e quem sabe a Capcom nem processaria. É o multiverso iniciado por Cloverfield, uma sopa que engloba vários conceitos dentro de uma marca incoerente e que nem traz tanta bilheteria por isso. Mas, no fim, ele é um filme de Resident Evil, e fiel ou não, pela primeira vez, podemos dizer que temos, de fato, um bom filme dessa tão sofrida saga. E os jogos, estes sempre estarão lá.

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