Ponto Sem Retorno (2026) - Crítica
Em texto e vídeo:
Quando penso no Ridley Scott moderno, me lembro de duas entrevistas dos últimos anos. Em uma, durante o lançamento de Napoleão, Scott se comparou com Scorsese, que promovia Assassinos das Luas das Flores, dizendo que dirigiu 4 filmes desde que seu colega havia iniciado o projeto com DiCaprio e De Niro. Outra foi no ano seguinte, após Gladiador 2, em que John Mathieson, diretor de fotografia do filme e colaborador antigo de Scott, declarou que o amigo estava "preguiçoso" durante a produção dos filmes, querendo apressar tudo, e que isso não gerava exatamente melhores experiências.
São comentários que explicam bem a situação atual da filmografia do lendário cineasta. Scott fez dois dos maiores filmes da história, com Alien e Blade Runner, além de outros ótimos filmes como Gladiador, Cruzada (a versão do diretor), Thelma & Louise, Perdido em Marte e, bem, longa lista. Podemos dizer que Scott é um dos grandes nomes do cinema comercial, realizando com a autonomia e manejo de poucos longas épicos de grande escala. Mas, ao contrário de Scorsese, que ele mesmo citou, não sei se o podemos considerar um autor - ou a autoria seria mesmo a escala e gênero de alguns de seus esforços.
Ao mesmo tempo destes longas notáveis, porém, ele fez produções bizarramente pedestres, como Todo o Dinheiro do Mundo, O Conselheiro do Crime, Um Bom Ano e Tormenta. Em suma, Scott sempre foi um pouco instável e inconstante, mas em meio a êxitos e fracassos, nunca houve uma safra tão infrutífera e frustrante quanto a atual, já que são filmes interessantes e promissores: desde O Último Duelo, de 2021, Scott dirigiu em ritmo industrial filmes atraentes, mas passou longe de extrair o melhor de seu material: A Casa Gucci, Napoleão e Gladiador 2 todos falharam à sua maneira. E talvez essa "pressa" tenha muito a dizer sobre isso. Vale mais lançar tantos filmes com um saldo negativo do que levar tempo e produzir algo elogiado e premiado como fez Scorsese? À beira dos 89 anos, talvez Scott queira expandir seu legado e dirigir o máximo possível antes de não conseguir mais.
Não deixa de ser impressionante, nesta idade, se manter tão ativo, ainda mais numa escala épica. Mas, bem, isso se torna uma nota de rodapé para a qualidade dos filmes em si. E se em 2025 passou batido, neste ano Ridley já retornou neste Ponto Sem Retorno; Dog Stars, no original. De dimensão menor e contemporânea, mas ainda fantasiosa e ousada: num futuro distópico em um mundo assolado por uma misteriosa gripe que dizimou parte da população e todas as consequências disto, alguns poucos sobreviventes tentam se manter, tendo de lidar com os óbvios grupos rebeldes que usam do apocalipse para assumir seu lado selvagem.
Bem, ao menos não temos zumbis dessa vez, mas somente pessoas ruins mesmo. Adaptado do livro de Peter Heller, eu diria que The Dog Stars, que tem um carismático cachorro por um tempo menor que o suficiente para engatilhar a trama, é uma mistura de A Estrada e Extermínio, mas sem atingir a contemplação do primeiro, nem a alucinação e tensão do segundo.
A trama genérica e já requentada tantas vezes não ajuda muito, por mais que Scott consiga extrair boas passagens aéreas dos Alpes italianos e, especialmente nos momentos de ação, cenas criativas e brutais, lembrando Falcão Negro em Perigo. O problema é que o filme, protagonizado por Jacob Elordi, Margaret Qualley, Josh Brolin e Guy Pearce, parece mais focado em atingir uma atmosfera familiar e reflexiva em meio ao significado do fim do mundo, do que abraçar seu tom de emergência, nervosismo e periculosidade.
O frescor e energia com que o diretor consegue visualizar e expressar as cenas de ação lembram seus melhores momentos no gênero, evocando imagens inspiradas em cenários e ambientes tão distintos. Há uma, de Brolin com óculos de visão noturna numa fazenda, que é um primor técnico e narrativo para gerar tensão e adrenalina, assim como outra que envolve uma fuga de um grupo de invasores a cavalo e um avião. Não gosto de relegar alguém à sua idade, mas, beirando os 90 anos e dirigindo algo assim? Suspiro.
Mas são pequenos momentos, diminutos dentro de quase 2 horas mais lentas que tentam produzir uma superficial sensação de apego e camaradagem que não vai muito além da química dos atores, especialmente - ou unicamente? - de Brolin e Elordi.
Se Scott está feliz somente em continuar trabalhando, bem, feliz por ele. Já deixou um legado insano e dois dos melhores filmes da história. Mas, se ele ainda tem em si esse fogo, talvez fosse mais produtivo e justo com sua filmografia focar e construir com clareza e calma uma produção que fizesse jus ao seu melhor. The Dog Stars não é ele, por mais que seja melhor e mais direto que seus últimos 3 filmes.
Nenhum comentário