Hope: o Primeiro Impacto (2026) - Crítica
Alguns filmes são difíceis de se descrever; e, por vezes, sua descrição não consegue transmitir suas sensações. Alguém poderia lhe vender o maravilhoso House, o psicodélico terror japonês? Se você assistiu ao filme, tenho certeza de que não. Bem, Hope, aqui no Brasil com o subtítulo de O Primeiro Impacto, certamente entra nesse grupinho. E isso é uma coisa bacana.
De toda forma, posso tentar: estabelecido nos anos 80, o filme se passa no vilarejo fictício de Hope Harbour, na fronteira do DMZ, entre as duas Coreias, completamente bucólico e rural, que se depara com mortes brutais e misteriosas de animais, cuja investigação por um atrapalhado e perdido delegado e sua pacata - porém prática - população se revela um jogo de caça com criaturas monstruosas e desconhecidas.
Talvez seu melhor indício seja a direção e o roteiro de Na Hong-jin. Diretor versátil e de bom olho para a ação e a criação atmosférica, é o responsável pelo seminal O Lamento, um dos melhores horrores - e filmes em geral - deste século, mas também por A Médium, O Caçador e The Yellow Sea. Mas Hong-jin também tem outra característica: ele é bem autocondescendente com seu trabalho. Seus filmes são todos bem longos, frequentemente ultrapassando os 150 minutos, e convictos em seus excessos.
Mas nenhum tão exagerado, grandioso e ambicioso quanto Hope. Mesmo que adote um gênero subestimado e tido como pouco profundo, como a ação, as camadas e dimensões que o diretor dá a seu filme, desde o início, o deslocam completamente de um simples cinema de gênero. Não somente por abraçar elementos do horror e da sci-fi, mas também da comédia, transformando sua longa duração numa epopeia que navega entre elementos e emoções, frequentemente flertando com o limite do bom senso, mas tão bem orquestrada, inovativa e confiante em seu absurdo que se torna uma experiência revigorante e insana de linguagem cinematográfica.
Muita gente andou falando, desde sua première em Cannes, sobre como Hope possui um primeiro ato brilhante que se desintegra. Concordo com a qualidade de seu início. Ele já dá o tom do cinema maníaco e frenético de Hong e atesta suas virtudes, bem como as de sua equipe técnica. Bem como ensinou Spielberg em Jaws, somos jogados abruptamente dentro de um vilarejo rural monótono e vazio, diante de um monstro desconhecido, de forma abrupta e violenta, que quebra a já tensa paz de um local que faz fronteira com os norte-coreanos.
Hong usa o posicionamento geográfico de forma consciente e inteligente. Primeiro, justifica o armamento pesado e moderno disponível e possuído por fazendeiros e caçadores comuns; reforça o isolamento e até o abandono de seu pessoal pelo governo sul-coreano, que se vê sem auxílio externo mesmo diante do massacre que enfrenta - e vale lembrar sua localização temporal para descartar o uso de smartphones e da internet; mas também sugere comentários sobre a violência como resposta imediata e natural para problemas de comunicação, apesar de não desenvolver isso tanto quanto deveria.
Usar um vilarejo simplório e que parece estagnado no tempo para enfrentar uma ameaça desafiadora e misteriosa corrobora uma climatização de desamparo e esqualidez, algo similar a O Lamento, sem todas as luzes e tecnologias alienantes das cidades grandes. Hong consegue, ainda assim, transformar as ruas estreitas e as construções baixas em um labirinto de tensão e mistério. Ouvimos os grunhidos da criatura e vemos seu rastro destrutivo, tudo do ponto de vista de um delegado claramente sem qualquer noção de como enfrentar tal ameaça, mas bastante tolo, bravo e bem-intencionado. O nervosismo pela expectativa e pelo terror é balanceado pelo humor dos personagens em meio ao caos.
Algo muito comum no audiovisual coreano, familiar a quem assistiu a Squid Game e aos renomados filmes de Bong Joon Ho e Park Chan-wook, que, mesmo em seus longas mais violentos, sociais e filosóficos, abusam do humor e do overacting para expressar absurdos e extremos.
Era de se esperar a revelação visual da criatura, tanto pelos personagens quanto por nós, com visuais antropomórficos que miram, intencionalmente, um vale da estranheza. A versão exibida em Cannes possuía efeitos inacabados, o que gerou certo desdém do público, mas, mesmo sendo o filme mais caro da história do país, em sua versão finalizada, há irregularidades nas animações dos monstros. Não que deixem de ser interessantes, e eu já vejo filmes há tempo demais e amo demais obras que se diferenciam para ser cínico ou preso a um julgamento juvenil de "artificialidade".
É notável como, após essa introdução já climática, uma breve redução de ritmo para contextualizar melhor sua história e seus personagens e sem a barganha da previsão de quem causa tal destruição, o filme consegue se manter tão visualmente inventivo, estruturalmente engenhoso e narrativamente aflitivo. Mesmo com quase três horas de duração e completamente sem filtro em suas piadas e situações de ação levadas ao extremo, Hong consegue construir set pieces criativas e inquietantes.
Cabe dizer, ainda, que o filme se passa basicamente todo à luz do dia, no máximo em alguns cenários escurecidos e sombreados, mas sem qualquer constrangimento em revelar seus monstros e a fisicalidade dos confrontos, tão desiguais, mas com humanos bastante comprometidos com a caça. É difícil dizer qual é o momento mais inspirado e criativo do filme, e Hong parece não se esgotar deles, nem demonstrar nenhuma pressa em finalizá-los por medo de soar repetitivo e cansativo. Pelo contrário. Como se fossem fases de um game, se a introdução já atinge um nível de clímax no vilarejo destruído, há outras passagens, uma numa floresta e outra numa longa perseguição de carro, que soam sempre vibrantes, imprevisíveis e brilhantemente arquitetadas.
Se no começo temos ainda o pavor do desconhecido, o isolamento e a aparência decadente e enigmática da vila, na floresta, sua vegetação e suas densas árvores viram uma corrida de obstáculos e segredos, e mesmo a revelação dos bichos não esvazia sua gravidade e urgência; e, por fim, a perseguição automobilística não deve em nada ao que PTA fez em Uma Batalha Após a Outra, cheia de adrenalina, agitação e uma direção bruta e enérgica em seu jogo de ações e consequências. Sempre com filmagens fluidas e dinâmicas, sabendo extrair o melhor de suas locações e circunstâncias, sem nunca perder o humor, mas também sem subestimar a urgência da situação.
Hope é uma festa, uma bem extravagante, grandiosa, não palatável a qualquer um, orgulhosamente idiossincrática, até mesmo para os padrões coreanos, que já serão estranhos a um público adestrado pela arte anglófona. Mas é, acima de tudo, uma festa apaixonada, confiante e tresloucada. É o cinema solto, livre, ocasionalmente perturbador e inconstante, mas sempre intenso e inesperado, mesmo que não na direção certa o tempo todo. Mil vezes isso do que um cineminha calculado e inofensivo.





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