007: Sem Tempo Para Morrer (2021) - Crítica


Se todo Bond representa seu tempo, talvez nenhum tenha enfrentado tantas mudanças quanto o 007 de Daniel Craig, que apesar de só o ter vivido por 5 longas, os teve distribuídos por 16 anos. É até engraçado pensar como Cassino Royale surgiu antes do primeiro Smartphone; no meio, viu emergir movimentos feministas e de minorias no núcleo da elitista indústria cultura, e os últimos anos do Craig como o agente foram marcados pela pandemia e o Brexit. Nos tempos mais líquidos da humanidade, como representar o clássico personagem sem fazê-lo soar como um anacronismo inadaptado ao mundo contemporâneo, algo que já circula a natureza da figura desde que Lazenby deixou o personagem em sua célere passagem?

Apesar de sempre ter tido um norte que sim, foi respeitado desde Cassino Royale, a resposta é a maleabilidade, o que não rejeita a coerência de trazer nomes de bastidores que acompanham a saga desde a era de Pierce Brosnan, uma forma de respeitar um legado mesmo durante mudanças, uma característica bem inglesa. Quando o personagem saiu desacreditado e ridicularizado dos filmes de Pierce Brosnan, a resposta primária foi aceitar a influência da ação sórdida e sóbria dos Bourne de Paul Greengrass, assumindo o realismo frio do personagem, porém conservando o romantismo carismático da franquia, ao mesmo tempo em que foi bastante direto na desconstrução do mito Bond, esse sim o maior espelho geracional destes 16 invernos.


James Bond sempre foi associado a um ícone universal de masculinidade, mas se a modernidade trouxe novos olhares pouco simpáticos às interpretações anteriores da figura, a missão de Craig foi reformular Bond para o século XXI, e talvez por isso, desde início, os produtores optaram por um ator de semblante tão divergente daquele típico do agente - o cabelo loiro foi especialmente criticado na Terra da Rainha, à época. Entretanto, novamente voltamos ao ponto da maleabilidade. A Inglaterra, o mundo e a sociedade como um todo se alteraram significativamente desde Cassino Royale, e se aquele agente 007 já exibiu um sentimentalismo que faria a visão de Connery e Moore do personagem vomitar (o que é um elogio a Craig, fique claro), a necessidade de ressignificar o símbolo sem ferir a alma foi um desafio constante aos diretores e roteiristas, assim como, narrativamente, as fórmulas de se fazer ação. Pois se inicialmente houve influência dos Bourne, a câmera direta e sombria adotada por Greengrass rapidamente se enfadou e tornou-se obsoleta. Neste limbo, surgiu a franquia de John Wick e Tom Cruise reinventou Missão:Impossível, enquanto Bond não teve a mesma agilidade, resultando, logo após o celebrado Skyfall, no cansativo Spectre, e agora, igualmente, num irregular No Time To Die. 

É muita coisa a se fazer, não se pode negar. Desconstruir um personagem e moldá-lo aos tempos hodiernos assim como manter a narrativa envolvente sempre é um desafio a séries que atravessam muitos anos. No Time To Die, nesse contexto, ainda surge como um filme dois anos atrasado de sua natureza cronológica real, tudo por uma pandemia que por si só já diminui a dificuldade das piruetas de Bond durante suas quase três horas, que se esvaziam conforme o personagem Bond parece tão cansado de tudo aquilo quanto Craig do esforço físico de vivê-lo. 


A resposta para a árdua tarefa de modernizar constantemente Bond e as técnicas de filmagem é mista. Como arco de personagem, No Time To Die merece todos os louros de conseguir dar um final coerente, corajoso e emocionante ao CraigBond, um homem que sentiu todas as dores, emocionais acima das físicas, que seus antecessores pareciam impassíveis. Um anti-herói que enfrentou a solidão não como um manto de mistério idealizado, mas sim purgatório a se superar. Que buscou amar e até se sacrifica por isso. O Bond de Craig, acima de tudo, reconstrói a figura do homem hétero como um indivíduo falho e emotivo, ainda mantendo vários dos elementos amados do personagem, mas integrando-os a uma personalidade empática e trágica, não como uma fantasia glamourizada de masculinidade tóxica e misógina. 

Narrativamente, porém, No Time To Die evidencia e intensifica muitos dos sinais de fadiga que vinham desde Spectre, seguindo uma decadência esperada após o ápice de Skyfall. Não chega a ser tão baixo, mas fica num meio que torna ainda mais inexplicável sua duração. Pois, como supracitado, o outrora revolucionário estilo dos Bourne já há muito se tornou ultrapassado, e a estilização romantizada e crente no absurdo dos últimos Missão:Impossível e, principalmente, do terceiro John Wick, expressam as tendências atuais da linguagem do cinema de ação. E se, óbvio, o gênero não deve ser refém de um único mecanismo, Fukunaga não soube aproveitar bem seus planos-sequência fora de um fetiche cinematográfico, sem tensão numa realidade já saturada de realismos e ávidas pelo escapismo da fantasia - justamente o que Cruise e Reeves protagonizam em suas franquias. 

Essa irregularidade entre discurso e técnica atinge um limite na atuação de Rami Malek, escolhido no auge do furor por sua interpretação de Mercury em Bohemian Rhapsody, vencedora do Oscar à época, então já polêmico, mas que em apenas dois anos parece se estabelecer como um delírio coletivo e entre os maiores vexames da academia. Não à toa, Malek é escanteado e parece jamais achar o tom vilanesco do personagem, adotando a megalomania afetada com intenções e razões envelhecidas, provectas, como que saídas dos anos 70, gerando forte indiferença em sua desastrada dicção para soar ameaçador. Para ser justo com o ator, é o roteiro que não parece muito bem o que fazer com seu  Lyutsifer Safin, algo que se repete, também, com a deslocada e esquecida Ana de Armas e várias mortes que são jogadas com displicência durante a nababesca duração. Fica transparente uma desorganização pueril quando equívocos tão nítidos são repetidos e não solucionados mesmo com mais de 160 minutos disponíveis. 

Ao fim, No Time To Die é um bom documentário sobre o personagem Bond, mas um filme inconstante, já soando datado para seu lançamento. A era de Craig deixa como grande homenagem à franquia justamente essa irregularidade, presente desde o início dos filmes; e como legado, entretanto, algo muito maior, que é reconstrução de um personagem visto como símbolo áureo da heterossexualidade masculina, mas agora na metamorfose de um solitário mulherengo misógino e tóxico, em um homem falho que sofre com seus sentimentos, e não é alheio aos seus arredores. Tudo isso, é claro, sem deixar de lado seu charme, o gosto por um Vodka Martini (batido) e carros de luxo, especialmente um Aston Martin.


James Bond evoluiu. Lacrou, e isso sem deixar de ser extremamente lucrativo. O encargo da próxima geração é seguir essa tendência sem esquecer, naturalmente, de incluí-la dentro de filmes que saibam se renovar igualmente.

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