Extermínio: o Templo dos Ossos (2026) - Crítica
Extermínio 3 foi um de meus filmes favoritos de 2025. Para ser mais exato, o quinto, como você pode ler aqui. A temática do clássico original surge com uma atualização alegórica e, mais pesada ainda, formalmente. Um filme disruptivo que não só não teme o desconforto, como o procura, convoca e suplica. Perturbador na mesma proporção em que encanta, com uma linguagem caótica que reflete o Zeitgeist diegético da Grã-Bretanha, mas mirando a mentalidade contemporânea na ilha e também globalmente.
Sua sequência, O Templo dos Ossos, entretanto, parte por outro caminho, inclusive descartando o final do antecessor, que deixava uma ponte clara, em intensidade e história, a ser seguida. É uma explicação com resposta óbvia, apesar de não termos as justificativas. Não somente se muda o capitão do navio, saindo Danny Boyle para a entrada de Nia DaCosta, como também grande parte da equipe técnica, como diretor de fotografia, montador e até a composição da trilha sonora. Naturalmente, temos uma nova identidade quase total — visual, sonora e rítmica. A conexão está no roteiro de Alex Garland.
Com um viés de tanto fascínio pelo primeiro, não deixo de lamentar algumas dessas escolhas. O mundo é claramente o mesmo, mas com uma abordagem narrativa completamente antagônica. Mais realista, serena e sóbria em oposição ao pulso histriônico e frenético de Boyle. DaCosta, entretanto, somente desenha sua assinatura para um quadro que parece nascer da mesma pergunta: “Se Deus não existe, tudo é permitido?”, de Dostoiévski. É por este mantra que tantos humanos dentro desta franquia já mostraram viver, e que atinge um epítome no grupo dos “Dedos”, comandados por um Jack O’Connell com o carisma e a confiança de um psicopata.
Mas não é somente essa visão cínica do satanismo, levada a limites somente tolerados por aqueles tão ateístas que não temem nenhuma punição divina, do bem ou do mal, que Garland e DaCosta refletem. Se o longa tem um protagonista, espiritual que seja, é o Dr. Kelson, de Ralph Fiennes, que já havia roubado a cena em 28 Years Later em sua desconstrução entre visual e caráter. Declaradamente ateísta, neste caso, e apesar de viver numa aparente profanidade, é quem demonstra mais delicadeza, sabedoria, empatia e razão em um mundo colapsado e anárquico.
É na dicotomia desses comportamentos perante o caos que DaCosta conduz seu olhar: o da agressão e o da compaixão. E ela não desvia a câmera de nenhum, pois não há viés, e sim a exposição para instigar a autocrítica e a meditação. Com tristeza ou admiração, a colisão entre ambos os personagens, magnéticos e grandiosos em sua própria atitude, conduzidos por atores brilhantes em um trabalho inspirado, é o incêndio que move a trama.
A direção paciente e contemplativa de DaCosta funciona muito bem no núcleo do Dr. Kelson, tanto por já o conhecermos quanto por seu estilo de vida. A relação curiosa, porém bela, com Sansão, e o contraste de sua plácida personalidade com as torres de ossos que se erigem para todo lado. Um templo que, por mais que erguido em boa disposição, parece clamar pelo horror.
Já no núcleo dos Dedos, entretanto, fora o choque de suas ações e a atuação obscena de O’Connell, o filme fica refém de uma narrativa convencional demais, ainda mais para expressar um grupo de delinquentes que emulam os Teletubbies e dizem seguir Old Nick, ou Satã. Tanto no desenvolvimento de suas origens, escolhas ou razões, fica uma frustração pelo enfoque mais objetivo em sua crueldade desproporcional e vazia.
O dedo de DaCosta e Garland é aprofundar o debate e fazer algo como Rian Johnson no terceiro Knives Out, sobre o surgimento de déspotas carismáticos, porém insidiosos e vis, em situações de ignorância, fragilidade e carência popular. A falta de carinho com o grupo, entretanto, enfraquece seu tempo em tela tanto visual quanto textualmente.
Ao fim, o grande pecado de Templo dos Ossos mesmo é seu deslocamento dentro de uma rede já estabelecida. Ele funciona quase como um spin-off, em que, em algum momento, teremos referências ou citações a elementos predeterminados, mas com necessidades de encaixe que o limitam a ser um organismo particular. E pior: tornam certas decisões contraditórias e inexplicáveis quando já tínhamos um conceito e uma consistência apresentados, com vigor, anteriormente. É uma história bruta, bem filmada e atuada, mas com certa decepção por cotejo.
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