Dia D (2026) - Crítica


Assistindo a Dia D, novo longa de Steven Spielberg, entre tantas ideias e pensamentos que se somam e sobrepõem em suas quase duas horas e meia, algo que ficou em minha cabeça durante toda a projeção foi o lema da saudosa Arquivo X: "Eu Quero Acreditar". Em questão, a convicção e a fé para crer não somente no sobrenatural, mas em algo além; nem maior, nem menor, mas diferente, incompreensível. De não estar sozinho e fazer parte de um circuito universal maior.

Entre tantos cineastas por aí, Spielberg foi - e é - um dos grandes defensores e entusiastas disso na sétima arte. Graças a ele, conseguimos imaginar e visualizar dinossauros, robôs futuristas e, acima de tudo, o poder da fantasia e de uma boa história, por mais que pudesse ser calcada na realidade - vide Indiana Jones.

Ninguém, entretanto, pode se gabar de ser tamanho defensor e aficionado por alienígenas quanto ele. De Contatos Imediatos de Terceiro Grau e ET para Guerra dos Mundos, AI e até mesmo o quarto Indiana Jones, Spielberg abordou sua convicção em sua existência das mais diferentes formas, tanto no design dos seres quanto no gênero da narrativa. Eles foram vilões, mocinhos ou somente neutros. Foram protagonistas ou secundários. A paixão estava em incutí-los como meio para dizer algo. Não podemos dizer que o diretor é um apaixonado por monstros como Del Toro ou Peter Jackson, mas sim por extraterrestres.

Após quase seis décadas dedicadas ao cinema, Spielberg muito evoluiu, mas algumas obsessões permaneceram as mesmas, talvez em um novo tom. Assistir a Disclosure Day, no original, é poder articular suas técnicas e temáticas por toda a filmografia do cineasta, interligando algo às suas múltiplas fases.

O que permanece, entretanto, é sua maestria para contar histórias e, especialmente, sua devoção à imagem e ao lúdico. Talvez nunca, no entanto, tenha sido possível mesclar dois fascínios de Spielberg em uma única fita: o thriller militar-político com a fantasia. Com quase 80 anos, é difícil imaginar que Steven volte a ter a mesma inocência e energia dos anos iniciais. Ele mesmo já deu entrevistas relatando que não teria mais a personalidade para certas decisões que tomou no começo da carreira, como o garoto morto em Tubarão ou o homem que abandonava a família para viajar com os aliens em Contatos Imediatos.

Ver o amadurecimento e a flutuação de um artista por tanto tempo é um privilégio. É acompanhar todo um retrato de sua vida e poder sempre voltar a ele. Se Spielberg já fez uma autobiografia realista com The Fabelmans, Dia D parece um manifesto para o seu eu artístico. Tudo o que ele gosta, mas principalmente, acredita.

Se Contatos Imediatos e ET eram filmes mais inocentes e mágicos, enquanto Guerra dos Mundos refletia um mundo em paranoia e pessimista - algo raro em sua carreira -, Dia D é uma mistura dos dois. Fazer um aceno a Contatos Imediatos é mais do que somente compartilharem a temática alienígena, mas por como isso se insere no mundo e causa uma intensa ruptura nele. Lá, era um microcosmo familiar afetado, com uma frouxa interferência governamental. Em Dia D, isso já conversa com um Spielberg e um mundo mais impacientes. 

O cenário externo é pouco abordado, mas ouvimos muito sobre um aparente apocalipse. Mas ele vem de dentro; de ameaças nucleares e rixas históricas. Uma invasão alienígena não é considerada, e é curioso como o apelo para a união não vem de um combate contra o estrangeiro, mas para reconhecê-lo, entendê-lo e ajudá-lo.

Dia D, escrito por David Koepp, que já colaborou com o diretor em Jurassic Park, Indiana Jones 4 e Guerra dos Mundos, está em constante movimento; com pressa. Os personagens de Emily Blunt e Josh O'Connor pouco compreendem o que acontece com eles, e são desafiados ao limite para auxiliarem a si mesmos, mas também o mundo e, é claro, o que quer que seja a criatura capturada pelo governo, na qual um pequeno grupo rebelde se apoia para confrontar a maior força militar do planeta.

Pode haver frustração por parte de quem esperava ver uma história mais tradicional ou expositiva sobre os alienígenas, e, por isso mesmo, vemos que Spielberg não busca um apelo nostálgico para voltar a ter um hit de bilheteria ou agradar a um público que anseia por filmes de sua infância, mas sim recolocá-los no escopo contemporâneo.

Um amigo disse que achou um tanto retrógrado o protagonista precisar da grande mídia, de um jornal, para expor os arquivos escondidos pelo governo. Penso nisso, primeiro, como uma validação de que ainda precisamos dela em uma era de IA e tantos influenciadores desonestos, e também como um respeito do cineasta pelo jornalismo, outro elemento presente em sua carreira.

Tanto esforço deixa aparente que ele parece saber de algo a que não temos acesso. Ou, então, que ele somente quer acreditar. Que há algo lá fora, qualquer que seja sua aparência. Mas também em nós, na humanidade e em uma empatia perdida. Na capacidade do bem cada vez mais engolfada pela indiferença, pelo egoísmo e pela desconfiança coletiva. Poderia tudo soar muito piegas e emotivo, não fosse um gênio no comando.

A imagem e a visão são conceitualmente fundamentais aqui. Tanto pelo espetáculo visual que temos, de um realizador dos mais confiantes e criativos na construção de uma cena, quanto pela crença que os protagonistas tentam passar ao resto do mundo. Um olho cósmico estampa um dos principais cartazes do filme, afinal. Então, talvez, mais do que tudo, Dia D seja sobre o próprio Spielberg. Não é o diretor "de volta ao que o consagrou", como muito li. É, simplesmente, Spielberg. É tudo aquilo que ele consegue fazer narrativamente, tudo o que representa e em que crê, e a forma como isso chega até nós.

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