O Que Andei Assistindo - Natal Amargo, Andor e Euphoria
Natal Amargo
Quando penso em Almodóvar, há alguns anos sempre me vem à mente algo que o realizador disse durante a promoção de Dor e Glória, em 2019: "Envelhecer é um massacre".
Essa frase ficou comigo. Tanto por sua força simbólica - e até como um lembrete dos anos que se aproximam -, mas também como espelho da produção do cineasta espanhol. Tão afeito a simbologias, equipes, temáticas e cores, é natural a um artista voltar a si mesmo como centro criativo e terapêutico nos anos finais de carreira. Com alguma condescendência, mas também consciência de seu peso. Em Dor e Glória, falava-se, bem, obviamente da dor e da glória, muito através do peso da memória em retrospectiva, com todos os seus desejos frustrados, arrependimentos, mas também o saudosismo da juventude.
Em Natal Amargo, Almodóvar parece mais, novamente apelando ao redundante, amargo, mas também sarcástico e bem-humorado. Não deixa de ser uma reflexão, seis anos após a que viera no filme protagonizado por Banderas. O que se acentuou nesse tempo? E o que pode ter atenuado? Alguém de 30 anos pode parecer jovem para quem tem 40, porém velho aos adolescentes. É tudo uma questão de perspectiva.
O que Almodóvar parece expressar, tanto para si quanto para os outros, é a efemeridade do tempo e a repetição cíclica dos tormentos e trejeitos que permeiam nossa célere passagem por este plano terreno. Não há contentamento em ser um autor celebrado, já longe dos anos de auge, mas docilmente agradando aos fãs por remanescer trabalhando.
Como alguém reconhece a hora de parar, ou a própria decadência? E o que fazer então? Viver assombrado pela nostalgia? Almodóvar se projeta nos personagens de Bárbara Lennie, no filme dentro do filme; e também num retrato mais literal em Leonardo Sbaraglia. É no papel de Elsa, vivida por Bárbara, porém, que temos uma metalinguagem com os elementos que moldaram o melhor do cinema do espanhol, tanto os velhos quanto os agora novos temas. A paranoia, as dores, a paixão pela arte, tudo transmitido, também, pelas sempre fiéis cores de sua visão. Tanto no design de produção, mas especialmente no figurino da personagem, frequentemente vista com camisas vermelhas esporadicamente camufladas por camadas superiores azuis, como se ainda houvesse muita paixão e fulgor para revelar, porém progressivamente sobrepostos pela melancolia.
É um Almodóvar padronizado.
Mas um Almodóvar mediano ainda é um deleite inalcançável para a maioria.
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Andor
Já faz algum tempo que estou desacreditado em Star Wars. Nunca foi, de fato, minha franquia favorita, sendo suplantada nisso por O Senhor dos Anéis e Harry Potter. Mas, até por sua onipresença na cultura pop, sempre trouxe uma certa FOMO de perder seus projetos, tidos como eventos. A falta de urgência que acompanha a marca já há alguns anos é, então, um atestado da incompetência da Disney em conduzir a saga criada por George Lucas, condenando-a ao streaming e lançando o filme de maior indiferença pública que a série já viu.
Até por isso, demorei a me debruçar sobre Andor. Não havia interesse suficiente neste personagem, pouco marcante no competente Rogue One. Foram as insistências e frequentes exposições a elogios em redes sociais, com temáticas às quais me alinho, que me fizeram dar uma chance. E ainda bem que o fiz.
Apesar de não inovar em sua simbologia, já que tais ideologias estão lá desde a síntese de Star Wars, o que Tony Gilroy e equipe fazem aqui é uma expansão em mitologia, conceito e profundidade nunca vista antes na saga. E não quero soar pedante, nem me render a axiomas, mas quando Stellan Skarsgård disse que Andor era Star Wars para adultos, talvez não da melhor forma, ele tinha um ponto.
A franquia conseguiu tamanho status justamente por sua abrangência temática e de nicho. Ela serve para o público infantil e para o mais maduro. Ela tem arminhas, lasers, luzinhas, bichos fofos, mas também todo um subtexto político-social que podemos ver representado na história, e novamente latente em nossa época. Andor abraça somente este lado mais cinzento e sóbrio, o que veio com sacrifícios óbvios em sua popularidade e lucratividade, que invariavelmente levaram Gilroy a reduzir de cinco para duas temporadas.
O pesar é pensar no potencial que Star Wars tem, que provavelmente seguirá inatingível por subsequentes lançamentos, em uma Disney completamente perdida quanto ao caminho a seguir e ao que ilustrar. Tentando agradar a todos e, nisso, afundando a marca num marasmo de indiferença e bolor.
Mas, no fim do túnel, sempre teremos Andor.
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Euphoria: Season 3
É fácil reconhecer um remendo quando se vê um. É aquele filme com refilmagens urgentes para corrigir algo. Aquele ator que abandona o projeto. Ou, infelizmente, quando alguém envolvido morre. A terceira temporada de Euphoria foi um cataclismo combinado de tantos fatores como esses. Alguns tristes, como o falecimento de Eric Dane e Angus Cloud, que com certeza altera os rumos da trama; mas também as desavenças do narcisista criador, Sam Levinson, com a atriz Barbie Ferreira. E, especialmente, a (in)disponibilidade. Euphoria, para seu mérito, se tornou grande e revelou muita gente. Zendaya, Jacob Elordi, Colman Domingo e até Sydney Sweeney, cada qual à sua maneira, são estrelas agora. Outros nomes, como Hunter Schafer e Austin Abrams, também se tornaram rostos regulares por aí.
A produção perdeu metade de seu tempo, Levinson teve sua alternativa cancelada após uma temporada, e as coisas desandaram rápido. O criador já disse que mudou o destino de Rue após a perda de Angus. Isso acaba sendo um sintoma de tudo o que falei, mesmo que por uma circunstância trágica. Euphoria, entretanto, nunca foi tão relegada aos próprios arquétipos. Tão criticada desde o início por certa glamourização do sofrimento e por abdicar da construção em prol da estética, ela de fato se tornou o que muitos ainda tentavam defender - eu incluso. Tornando-se, assim, um pastiche retalhado, feito por montagens e inserções tecnicamente impressionantes, mas estruturalmente ocas.
A derrocada veio em película. Texturizada, belíssima e cara; profunda no campo e rasa na superfície. Fato é: o orçamento da temporada foi generoso, e isso foi visto em tela. O arco narrativo de seus personagens não acompanhou, infelizmente, esse investimento.
Passados cinco anos da segunda temporada, o microcosmo do ensino médio se expandiu para a vida adulta, e ser o mais rico, ou mais bonito, não se sustenta mais. Levinson tem um norte interessante e contemporâneo. O American Dream não é nada senão uma miragem que castiga quem o persegue com a esperança de uma caixa de Pandora. O mantém de pé, mas completamente asfixiado em sonhos inalcançáveis. Se os caminhos tradicionais não funcionam mais - a moralista Lexi não chega a lugar algum com seus julgamentos -, a terra prometida vem por novas vias alternativas. Rue, Jules e Cassie perseguem a liberdade somente permitida pela riqueza na desilusão do "melhor país do mundo".
O que encontram são dívidas, burnout, exploração, objetificação e um sonho cada vez mais distante e ocultado. Eu escrevi mais sobre essa temática num artigo que você pode ler aqui.
Somente de boas ideias não se faz uma série, entretanto. Os bastidores destruíram o valor de Euphoria, que por muitas vezes pareceu um simulacro de suas temporadas anteriores. A arrogância de Levinson em recusar compartilhar a idealização da série, as rusgas entre o elenco - dizem que Zendaya e Sydney não se suportam, e o fato de não terem dividido interações reforça muito isso -, as rusgas do próprio Levinson com a equipe, vide Barbie Ferreira, e o foco do elenco em projetos para o cinema. Tudo isso contribuiu para alguns bons momentos naufragados em desorganização e muita redundância.
Em certas abordagens, Levinson pareceu fetichizar o que buscava satirizar, como no arco de Sweeney. Eu gostei, no entanto, de como é representada a religião como ópio final de um povo sem perspectiva, em concordância com o aumento da presença da Geração Z em igrejas. Os dois últimos episódios, quando muito já havia desandado, já mais leves, entregaram os melhores momentos da temporada. Despojada da necessidade de se provar, abraçar a estética e a forma do western rendeu um momento saboroso no duelo entre Ali e Alamo.
Sem futuro na realidade, como Rue sempre buscou refúgio nas drogas, a resposta de Euphoria, em seu canto do cisne, foi a fantasia. A fantasia da riqueza em seus personagens amargurados e por um fiapo nervoso de se partirem, enquanto, narrativamente, Levinson se apoia em um gênero moldado no constante movimento. Na busca pelo ouro, no desbravar do Oeste, na defesa dos frágeis.
Faltou, entretanto, coesão narrativa e mais respeito com o espectador e os personagens que nos fizeram seguir este show em seus longos hiatos - qual a função de Nate nesta temporada? Enfim... Euphoria parte tendo deixado um legado, mas sem deixar saudade ou qualquer desejo de continuação. Parece um fim forçado e frustrante, como se fosse somente para terminar mesmo. Talvez fosse melhor deixar tudo para a especulação imaginativa com o fim da segunda temporada.

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