Mestres do Universo (2026) - Crítica

Eu me pergunto quando Hollywood vai mudar o tom. De fato, o tom. O esquema de cores e a fotografia de seus filmes. Essa dualidade arbitrária que ou é escurecida e cinzenta (Nolan e Villeneuve), ou suga o máximo de realismo mesmo do conceito mais colorido e fantasioso de todos (Marvel). O mal que tal abordagem tem feito ao audiovisual só poderá ser plenamente entendido em retrospectiva, se algum dia acabar, pois já dura tempo demais, e, mesmo com o recente ocaso dos filmes de herói, ninguém ainda parece ter entendido bem a lição. Hollywood se tornou refém disso.

Há algumas semanas tivemos Mortal Kombat II, por exemplo, um jogo que exala exagero e cores vivas. O filme, entretanto, fora duas cenas no máximo, esconde suas coreografias e golpes em locações sem contraste, majoritariamente à noite. Fica difícil se divertir assim.

Mestres do Universo, que poderia se chamar somente He-Man por aqui, sejamos sinceros, é um filme que mais do que pede; ele clama, implora por cor, ruído, confetes e vibrações espalhafatosas. Um homem musculoso, com cabelo Chanel, e que ou veste rosa, ou usa tanguinha e é afeito a lições de moral. Não é em vão que a maior referência cultural moderna do personagem seja o meme de “What’s Going On”.

Algumas coisas o diretor, Travis Knight, advindo das animações em stop motion da Laika, e seus três roteiristas entenderam. O He-Man de Nicholas Galitzine e o mundo ao seu redor são desconstruções do personagem como coach infalível e mais representações cômicas de todo o absurdo que cerca sua origem. De início, por mais bonito e sarado que seja, o rapaz é abandonado em um encontro por suas idealizações desvairadas. A atuação e a abordagem do diretor e do ator ao personagem são uma mistura da depressão pós-capitalista de Matrix Resurrections com o otimismo doce e revolucionário do Superman de James Gunn.

He-Man não pertence ao mundo corporativo. E como poderia? O mundo de Eternia parece tão mais seduzente e encantador, com seus castelos, poderes e animais falantes. Mesmo o tirano que ameaça o reino exala magia e zombaria, ao menos sendo mais divertido e carismático que um executivo real - vide a chefe de Adam/He-Man.

Quanto mais o longa progride, entretanto, mais Knight perde o controle dessa interpretação absurdista da linha da Mattel. A autoparódia rapidamente dá lugar a um cinismo descontrolado que, em seus piores momentos, lembra um hábito tão irritante da Marvel: invadir suas narrativas com piadas intromissivas que interrompem quaisquer momentos que exigem carga dramática e reflexão. É uma escolha infeliz e infantilizada que vai, lentamente, esvaziando o peso do enredo. O diretor parece pouco interessado nas cenas de ação, por exemplo, e sim em preenchê-las com sátiras dos discursos do herói, o que sabota a catarse advinda de sua transformação. Knight não permite tempo para absorver e se impactar. São cortes rápidos que rompem a emoção sentida, ou sequer nos deixam sorvê-la. 

A tentativa de trazer uma dicotomia e uma discussão sobre masculinidade, bem como a humanização do mal, parece nunca ganhar forma de fato, ou convicção, sendo somente sugeridas para reforçar, novamente, piadas que surgem como um despertar abrupto em um pesadelo. A história de He-Man traz uma dramaticidade que remete a Thor e Doctor Who. A perda do lar e da família, temas convencionais, mas clássicos e funcionais para trazer profundidade, que aqui são descartados com pressa e indolência ímpares.

Nesta indecisão de como retratar o protagonista, quem toma o filme para si é o Esqueleto de um improvavelmente incrível Jared Leto. Confesso que não sabia quem era a voz do personagem e não o reconheci. Mas terminei a sessão ansioso para ver quem fora o responsável pela brilhante atuação por trás do vilão. Mesclando a conhecida personalidade caricata da criatura com uma dramaticidade megalomaníaca, cômica e divosa, Leto faz um trabalho de voz hilário e impecável para dar vida e muita personalidade a um rosto cadavérico, conduzindo com frescor e imprevisibilidade os acessos de fúria e vaidade do nêmesis. Contribuem para isso um CGI impecável e igualmente engraçado em suas expressões, e temos um personagem que ofusca todo o restante, além de ganhar uma cena inacreditável que envolve uma academia e um escritório.

É um alento para um filme que ameaça sair do lugar-comum, mas somente o abraça e termina relutante em tentar algo novo. He-Man traz um texto e uma linguagem de redes sociais. Tenta ser moderno, inteligente e engraçado através do autorreconhecimento de sua mirabolância cartunesca. Mas insiste tanto nisso que, quando percebemos, fomos novamente traídos e não resta mais tempo para uma mudança do supracitado tom.

Faltou mais do que força ao He-Man aqui. Faltou convicção e paixão para se assumir extravagante como o material original, mas sobrou um humor autodepreciativo que, no fim, é só um engodo para chegar ao mesmo destino de todo blockbuster realista e envergonhado de sua origem que nos é empurrado há quase duas décadas.

Nenhum comentário