Dentro da Baleia (2026) - Crítica

Existem alguns conceitos que parecem fazer parte do inconsciente coletivo. Curiosamente, viver dentro de uma baleia parece ser um deles. E isso vem de milênios. Temos a história bíblica de Jonas, é claro, em que um grande peixe, em algumas traduções, uma baleia, o engolia, assim como o Gepeto de Pinóquio. No século XIX, temos a história de James Bartley, um britânico que foi engolido por um cachalote e viveu cerca de 15 horas dentro do cetáceo, sendo descoberto por seus companheiros após abaterem o animal. Hoje em dia, cientistas e historiadores refutam o fato, tanto pela impossibilidade do ocorrido quanto pela inexistência de tal sujeito no barco ao qual é atribuído como tripulante. Por mais de 100 anos, entretanto, sua história viveu como notícia, até virar lenda. É uma mistura de fascínio com medo.

E os cachalotes, imortalizados no imaginário popular desde Moby Dick, são um objeto ideal para tais representações desse nosso pesadelo obscuro. São a única espécie de baleia com garganta larga o suficiente para engolir um humano. Ao contrário, por exemplo, das jubartes, com vários registros recentes de caiaques e pessoas que acabaram nas bocas das baleias acidentalmente, sendo repelidos rapidamente devido ao seu tamanho. A mera possibilidade, por mais improvável, já alimenta o mito e a imaginação.

E, se as orcas até então monopolizaram a representação audiovisual dos cetáceos por sua inteligência, carisma e apelido bem cinematográfico (baleias assassinas), Dentro da Baleia, ou Whalefall, no original, vem para sedimentar e dar visão a este pavor incorpóreo de acabar dentro do estômago desses gigantes e belos seres.

O filme faz seu dever de casa para criar o cenário mais factível possível para tal improbabilidade. Vivemos na era do cinismo, da ciência, da desconfiança, afinal. A baleia é, naturalmente, um cachalote. O indivíduo que para lá dentro está equipado com roupa de mergulho - logo, ao menos se cria a possibilidade de sobrevivência moderada, ao contrário de Bartley, completamente desamparado. E a baleia não demonstra uma natureza perniciosa, vingativa ou monstruosa, como Moby Dick. O animal demonstrava seu comportamento normal - talvez muito à superfície? -, caçando uma lula-gigante, quando o jovem Jay, vivido por Austin Abrams, acaba desafortunadamente no caminho.

E o gatilho para o incidente não é o único elemento com o qual o filme busca realismo. Pois, quando se passa dentro da baleia, tecnicamente um cenário novo para o audiovisual, o diretor Brian Duffield, que até então tinha uma carreira bem medíocre e esquecível, consegue fazer um filme mais angustiante e apavorante do que qualquer terror com censura para maiores de 18 anos conseguirá neste 2026. Brian, também o roteirista, com base no livro homônimo de Daniel Kraus, cria um thriller claustrofóbico de isolamento e confinamento desesperador, imprevisível e repulsivo.

Usando a anatomia do cachalote, que possui um estômago de quatro câmaras, Brian cria seus cenários, todos com efeitos práticos, contribuindo novamente para o realismo que vemos em tela e para as reações de Abrams, que aqui tem uma circunstância de survival horror ainda mais desafiadora e aterrorizante do que em Resident Evil.

O uso de um set prático é um acerto tremendo, pois os efeitos especiais poderiam artificializar e sabotar toda a proposta do longa, que passa grande parte de seus 106 minutos dentro de duas câmaras do estômago da baleia. Com intensa casualidade e brutalidade, o filme já usa a imensidão do mar como uma insinuação de horror do desconhecido, com a indiferença impiedosa da natureza não como um antagonista, mas quase como uma entidade a ser temida e respeitada. O ataque da baleia à lula, que acaba envolvendo Jay, é frontal, pesado e angustiante, já nos impregnando de pavor.

Qualquer incredulidade e questionamento científico se tornam irrelevantes perante a sequência de desafios que vemos dentro da baleia. É uma combinação quase insuportável de tensão e repulsa. A coloração, a textura e a movimentação de seu organismo; o líquido e os dejetos internos. Acho que nunca havia me contorcido tanto na cadeira, com ânsia de desviar o olhar por aversão.

O diretor se torna um mestre dos espaços, usando o confinamento e tudo o que compõe o ambiente como elementos diegéticos de terror, mantendo o nervosismo e a surpresa por meio das situações que vão surgindo e exigindo respostas rápidas do protagonista.

O filme, entretanto, enfraquece suas maiores virtudes ao buscar um sentimentalismo entre pai e filho para criar um arco dramático que justifique suas ações e provoque seu instinto de sobrevivência. Intercalando narrações em off e flashbacks que tentam aprofundar o protagonista por meio de daddy issues, com uma figura paterna vivida com rigor e uma ferocidade brusca por Josh Brolin, que até confere seu velho charme e carisma ao personagem, mas que, em nenhuma análise, me soa realmente necessário ao longa, ao menos com tanto foco, especialmente no terceiro ato.

Não li o livro para saber de tal subtrama, mas, como um suspense de sobrevivência, Dentro da Baleia já é atônito e torturante como expressão visual de uma espécie de pesadelo coletivo. Austin Abrams tem um trabalho completo entre vulnerabilidade e indignação para nos manter atentos, e o filme consegue artifícios criativos e clássicos para manter sua narrativa fluida. Como no bom e velho Náufrago, em que, para driblar a solidão, o personagem de Tom Hanks faz amizade com uma bola, as interações de Jay são com uma água-viva (ou algo similar) e o bico de uma lula-gigante, que servem tanto como artifícios práticos para sua sobrevivência quanto como companheiros para manter sua sanidade.

Visceral e criativo, Dentro da Baleia é como um pesadelo (muito bem) filmado. Sabe usar o silêncio para gerar desconforto, com uma atuação reveladora e intensa de Abrams. É um desses filmes que usam o arcabouço cultural, o cinema, a psicologia e a história para criar um fator novo dentro do cinema. Mesmo sem se catalogar no gênero terror, dificilmente um filme dará tanto pavor e provocará tantas reações físicas no público quanto esse.

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