Isso Era Uma Crítica de O Outro Lado das Redes, Mas Virou Algo a Mais

Algumas semanas atrás, houve o lançamento de Digger, um filme polêmico e bastante divisivo que acabou se tornando um fracasso retumbante para a Warner, mesmo tendo um marketing pesado ao redor de Tom Cruise. Você encontra a crítica no canal e eu termino dizendo que, apesar de ter muito a falar e várias virtudes, Digger se perde em suas ambições e não recomendaria o filme como prioridade para se ver no cinema. No entanto, o longa tem ficado em minha cabeça desde então, o que sempre é um sinal importante de, talvez, um revisionismo mais calmo e atento no futuro.

Cabe dizer que direi aqui spoilers do filme: Digger se trata de uma peça de teatro dentro de um filme, revelada durante a narração, pegando-nos de surpresa. Ao final, vemos o encerrar de uma encenação sobre um grupo da elite americana que, com suas atitudes egoístas e negacionistas, levou o mundo a uma catástrofe climática, um verdadeiro apocalipse. O público xinga, extravasa, aplaude e rapidamente deixa o teatro para dar sequência a suas vidas e tarefas em meio a tudo aquilo. O sistema ainda funciona, mesmo colapsado, e a roda dos ratos gira.

Li algumas interpretações sobre isso. E muitas outras devem existir. Mas a minha é diferente de muitas delas, como deixei claro no vídeo. Digger me fez pensar em como a arte, apesar de nos fazer pensar, refletir e descobrir, também pode servir como um mecanismo adestrador, reverberando nossas ideologias e crenças, trazendo catarse, julgamentos e espelhando nossas convicções, mas sem de fato mudar nada no cenário prático da vida. Como o público de teatro ao final de Digger, assistimos, liberamos alguma raiva, com alguma satisfação e senso comunitário por vermos que não estamos sozinhos, e seguimos, costumeiramente, vítimas e reféns de algo maior. O povo brasileiro é um dos maiores exemplos dessa indiferença, dessa revolta controlada e preguiçosa. Deixamos de ser cidadãos e nos tornamos público, como diria Lima Barreto.

Vemos filmes e séries que acusam e criticam o sistema ou satirizam regimes, evidenciando suas injustiças através de uma linguagem menos ou mais rebuscada, como Vá e Veja, Parasita, O Expresso do Amanhã, Succession, Jogos Vorazes e, bem, uma lista interminável. Algumas dessas obras são declaradas como "produto de nossos tempos" por representarem aspectos relacionados mais especificamente e envolvidos com o tempo contemporâneo de seu lançamento. Pela ciclicidade da história, claro que alguns fatores vão se sobrepor, por exemplo, quando você busca criticar guerras ou o capitalismo, mas um filme bastante documental, premonitório e simbólico de nossa era é A Rede Social, de 2010.

Passados 16 anos de sua estreia, é divertido rever a obra de David Fincher. Ele se preserva muito bem narrativamente em sua linguagem, apesar de soar envelhecido em decorrência do que era a Meta lá e é aqui. Há uma passagem muito boa do longa em que uma advogada diz a Mark, interpretado por Jesse Eisenberg: "Você não é um idiota, Mark. Mas faz de tudo para ser." O filme encerra num aceno otimista, numa conclusão sincera. Diria até que pinta Mark como alguém cool, atrevido e divertido em suas idiossincrasias. Os indícios tanto da ética e personalidade de seu criador quanto dos potenciais destrutivos do Facebook e das redes sociais em si são expostos, mas num grau muito menor, afinal, não tinha como os envolvidos terem a dimensão do que se tornaria.

Passado todo esse tempo, The Social Reckoning, aqui conhecido como O Outro Lado das Redes, vem para constatar que Mark finalmente conseguiu se tornar um completo idiota, um dos maiores. E não um idiota no sentido de ignorância, mas sim de caráter. Um filme que surge já, aliás, envelhecido e ultrapassado, focado em eventos entre 2019 e 2021 que não apenas mal tiveram consequências, como foram perniciosamente alavancados em profusão e intensidade assustadoras desde então.

Ver o filme em sua data de lançamento pela perspectiva brasileira é uma experiência sarcástica, tênue, retrógrada. Tudo que fora prenunciado, acusado e introduzido ali pelas ações do Facebook ainda antes de se tornar Meta, pelas decisões de Zuckerberg, pela série de matérias reveladoras do The Wall Street Journal e pelo sacrifício de Frances Haugen parece, sinceramente, ter dado em nada.

Como discurso, como ideologia, apesar de concordar com a visão de Aaron Sorkin, seu diretor e roteirista, é como ver um documentário que fala sobre o planejamento de um golpe de Estado ser lançado já em pleno regime ditatorial. O Outro Lado das Redes fala sobre os efeitos nocivos do Instagram para a saúde mental de seus usuários. Fala sobre como o algoritmo foi moldado calculadamente para fomentar discursos de ódio, radicalismo e propagar fake news. É método para engajamento e, portanto, retornos financeiros mais gordos.

Na vida real, qualquer multa e penalização que Mark tenha pago foi insignificante perante o crescimento de seu patrimônio. As decisões e a diretriz da Meta hoje invalidam a importância das matérias do jornal. Regulação das redes se tornou sinônimo de censura, e os opositores dessa ideia hoje mandam nos Estados Unidos e no mundo - e um pode já estar no Brasil quando você lê esse texto. Se o filme busca explorar os mecanismos absurdos da Meta e expô-los, cabe dizer que o mundo todo já sabe disso e parece não se importar muito, e que tudo, desde então, é feito muitas vezes pior. Não há mais checagem de fatos para publicações nem propagandas pagas, e a única fiscalização parece ser justamente uma sabotagem metodológica contra posts de esquerda e o impulsionamento artificial de figuras que fomentam o discurso da extrema-direita, ignorando se são mentiras, sensacionalismo ou se direcionam ataques pessoais.

Como linguagem, como técnica, o filme é burocrático e tão aborrecido quanto toda a carreira de Aaron Sorkin como diretor. Se você quer ver um exemplo ilustre e definitivo sobre a diferença da importância de um bom roteiro contra um bom diretor, use a filmografia de Sorkin como exemplo. Escritor premiado e referendado por seu estilo de diálogos rítmicos, rápidos e agressivos, como diretor, ele é lento, desinteressante e repetitivo. Acho até engraçado que Sorkin tenha dito, certa vez, algo sobre seu estilo de "tell, don't show", uma expressão difícil de traduzir em intenção, mas com o significado de contar histórias de modo não expositivo, nas nuances. No eterno debate sobre se o mais importante em um filme é o roteiro ou a direção  e, claro, o ideal sempre é termos os dois por excelência -, acho que podemos dizer que um diretor criativo e com soluções visuais pode dar vida a um roteiro simples (vide Mad Max), enquanto um diretor maçante pode arruinar um bom texto. A ironia aqui é Sorkin estragar seu próprio trabalho.

Apesar de não serem sequências no melhor estilo cinematográfico, assim como Harry Potter ou O Senhor dos Anéis, é fato que o filme serve como continuação cronológica de A Rede Social. Assistir ao longa de Fincher para referência ou comparação, entretanto, é um massacre para O Outro Lado das Redes. A única vantagem de Sorkin é o tempo e tudo que aconteceu com a Meta, o mundo e Zuckerberg desde então. Como ferramentas para ilustrar uma história, tornam-se um deboche. A Rede Social é acelerado, estiloso, dinâmico e eloquente. O Outro Lado das Redes é... discursivo. Os atores se movem e repetem os diálogos do roteiro, sem idealização visual ou qualquer criação atmosférica. Sorkin se contradiz e mostra um bocado sem dizer muito.

E é triste ver um elenco tão bom desperdiçado assim. Meu querido Jeremy Allen White, por quem torço muito para que tenha sucesso após a incrível The Bear, Mikey Madison, em seu arriscado e esperado primeiro trabalho desde o Oscar por Anora, assim como o talentoso e problemático Jeremy Strong, com seu comprometimento com o método. Se, em A Rede Social, o Mark de Eisenberg ainda era uma promessa, um embrião de narcisismo, indiferença e crueldade, o de Strong já é uma figura madura e formada. Um robô frio, rígido e abstraído. Sorkin não deposita muito esforço nem busca compreender ou explorar a figura, mas já a pinta como um símbolo de poder, com uma aura superior, inalcançável. Nem discordo dessa representação, apesar de ser triste ver Strong numa nota só, mas o pior é que não há muita diferença na abordagem dos personagens de Madison e Allen White. Todos parecem monocórdios, entediados e unidimensionais, presos em suas caricaturas.

A bilheteria decepcionante do filme acaba como sumarização de muita coisa: da pobreza de O Outro Lado das Redes como obra de arte, assim como da passividade e do desinteresse do povo por essa história e debate. A Meta é isso. Interfere em nossa rotina, manipula nossos pensamentos, decide eleições. Assim como parecemos aceitar a inflação, o preço das casas, dos carros, da criminalidade. Tudo se tornou bordão ou chavão, quase um elemento cultural e socialmente intrínseco. Eu mesmo reclamo da Meta, critico, defendo a regulamentação das redes, mas sigo usando boa parte delas. Parece já meio tarde para voltar atrás, e você só aceita, meio indignado, esperando o próximo filme, livro ou série que vai representar seus pensamentos, dar uma desabafada e então checar o Instagram e ligar o despertador para o próximo dia.

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