Street Fighter (2026) - Crítica
Olha, confesso que não tinha nenhuma expectativa pro filme de Street Fighter. O jogo não tem lore suficiente, o trailer foi, no mínimo, questionável, e adaptações de jogos, especialmente de lutas, não costumam funcionar. E, para minha surpresa, ele começa muito bem. Com sequências em animação feitas pelo estúdio Titmouse Inc., que remetem ao melhor material audiovisual da franquia, o filme animado de 94 e sua sequência, a série de 95, muito marcantes pra quem assistia SBT pelo final dos anos 90 e começo dos anos 2000. Brutais, tecnicamente fluidos e com personagens carismáticos, não precisaram de nenhum malabarismo narrativo e focaram mesmo nas lutas e num estilo visual chamativo. Como traduzir isso ao live-action? Ou talvez a melhor pergunta seja: por quê?
Kitai Sakurai, diretor e um dos roteiristas, abraça a galhofa para lidar com a simplicidade e o enredo retrógrado dos jogos. Street Fighter, nascido no arcade, nunca contou com histórias profundas e uma trama elaborada. Fãs de Mortal Kombat podem se gabar de sua franquia ter evoluído o gênero neste quesito. Passado em 1993, Street Fighter seduz em seu primeiro ato, fazendo uma construção de mundo como se fosse mesmo uma paródia idealizada do que era a vida naquele período; como se fosse um clipe estilizado da MTV. Cores saturadas, um bem-vindo contraste ao blockbuster contemporâneo, mesmo o recente Mortal Kombat 2, luzes neon para todo lado, uma arquitetura que parece sair dos subúrbios de Hong Kong, atulhados e visualmente poluídos, ou então uma Miami Vice, e uma montagem caricata, se insinuando a um Scott Pilgrim em seus momentos mais inspirados.
O Ken de Noah Centineo surge como o protagonista ideal desta abordagem: um brucutu oitentista perdido em meio à modernização, ostracizado, ridicularizado e símbolo de uma cultura decadente. Quase uma metalinguagem de fetichização masculina viril virada ao avesso. Acompanhar sua jornada como uma estrela vintage de subcultura, uma WWE das madrugadas obscuras, é divertido e hilário. O contraste entre as sequências animadas, sérias e sóbrias, e o live-action caricato e cartunesco evidencia uma espécie de saudosismo temporal que se perde em meio a uma cultura de cinismo e pseudointelectualidade, um mundo sem espaço para os Kens. Daria um ótimo curta, ou talvez uma boa minissérie.
O problema é que tanto essa abordagem não dura como se torna irregular e repetitiva numa construção narrativa mais longa e que vai, progressivamente, se perdendo conforme tenta de fato contar uma história séria e com significados e consequências, sem nunca definir de fato um tom climático uniforme ou bem distribuído.
O filme é bem direto em apresentar seus personagens unidimensionais e seus objetivos; saídos mesmo de um desenho oitentista com a ação como objetivo final. O Lorde Bison de David Dastmalchian é o nêmesis ideal deste pequeno recorte iniciado com Ken. Ambos possuem uma personalidade e só; o vilão, classicamente, com seus objetivos de força infinita, agindo como um gângster misterioso e grandiloquente. É divertido, até não ser mais.
Isso porque, na contramão, para tecer alguma sobriedade e tentar conferir alguma urgência à sua trama e aos seus personagens, o filme tenta contramedir tal leviandade dramática nos arcos de Ryu e, especialmente, Chun-Li. Enquanto Ryu, como este herói atormentado que luta contra os próprios demônios, soa como uma paródia indireta de um personagem que se leva muito a sério num mundo superficial, Chun-Li segue por um caminho mais promissor. Callina Liang traz peso à personagem, que se torna um centro gravitacional instigante dentro de uma subtrama política e vingativa. O problema é que, cada vez mais, fica evidente que o roteiro não tem interesse nem capacidade de desenvolver essa sugestão dramática. No fim, seu background é resumido a uma grande piada, que aglutina a plot e o arco mais previsíveis possíveis. A atriz e a personagem soam isoladas e desperdiçadas no todo.
Se, como roteiro, não há muito o que dizer e levar em Street Fighter, vamos às lutas como esse objetivo fatídico para o qual todos os conflitos se direcionam: a amizade corrompida; a vingança pessoal. Tudo resolvido na boa e velha pancadaria. E, novamente, somos deixados decepcionados. E me entristece como Street Fighter parece ter entendido bem como esboçar seus visuais excêntricos e coloridos para ilustrar este mundo de arcade cartunesco, representante de um tempo mais simples e perdido, na contramão, reitero, de seus colegas modernos, escurecidos, realistas e aborrecidos. Apesar de algumas batalhas se passarem em cenários claros, cheios de contrastes e visualmente interessantes, os embates principais e mais climáticos migram para ambientes fechados e sombrios, onde mal conseguimos discernir o que se vê.
E, para piorar, há uma falta de inventividade e fluidez nas coreografias, mais focadas, frequentemente, em planos fechados para golpes pesados e frontais, cheios de cortes, enquanto a prenunciada batalha de Chun-Li, quando esta finalmente deixa de lado seu disfarce e formalidade, é apressada e ofuscada pelo ambiente mais sombrio do filme.
Quanto ao torneio, este é de fato pior do que uma decepção: é um deboche quase ao nível do Mortal Kombat de 2021. Uma grande encenação dentro do próprio filme, não passa de mero embuste narrativo para Bison realizar seus planos. E beiram o inacreditável as escolhas criativas da equipe para dar vida a ele. Grande parte das lutas é ignorada, e só vemos o resultado final. As que assistimos, por sua vez, são apressadas, preguiçosas e sem catarse alguma. Não me lembro de ver um filme de lutas tão acelerado e sem usar artifícios de construção narrativa para dar peso e empolgação às batalhas. É como se o longa tivesse pressa em somente acabar.
Conforme avança para seu final, Street Fighter vai esvaziando e sabotando quase todas as virtudes apresentadas no primeiro ato. Ken nunca deixa de fato de ser aquele sujeito mongoloide e deslocado do tempo, e a falta de química de Noah Centineo com Andrew Koji, que vive Ryu, enfraquece e desvaloriza sua subtrama de redenção e reencontro. A fotografia saturada e os cenários hiperestilizados do início dão lugar, cada vez mais, a ambientes genéricos, enclausurados e monocromáticos, com efeitos irregulares e um desperdício de personagens, que são esquecidos, descartados e somem do filme sem explicação alguma.
Street Fighter passa uma sensação perene de introdução, de grandes coisas por vir, que jamais se realizam. O plano de Bison, o grande momento individual de personagens, algo costumeiro em filmes do gênero, ou não chega ou é filmado de maneira negligente e artificial. Até finalmente dar sua cartada final, ao pintar uma sequência para finalizar estes eventos tidos como grandiosos. A atitude mais covarde e obtusa que consigo imaginar, usando seu filme como um celeiro insuficiente e inconclusivo.
Ao fim, não planta quase nenhum anseio de fato de continuar a ver essa história, desses personagens, dessa forma. O máximo que consigo sentir é o desejo de revisitar a animação dos anos 90, ou que façam uma nova versão aos moldes do anime que é apresentado aqui nos flashbacks. Nesta trilogia indireta de produtos de ação baseados em marcas do passado, entre Mortal Kombat 2, He-Man e Street Fighter, podemos até dizer que Street Fighter é quem chega, por alguns instantes, mais perto de entender o lugar de sua marca no mundo moderno, mas a conclusão parece ser mesmo a de que seu espaço é no passado, num sentimento que só existe na memória de algo que não existe mais.
Não serve nem como guilty pleasure.






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